sexta-feira, 5 de junho de 2009

O Revólver Guerriero

Bem, costuma-se dizer que o mundo é dos mais espertos, certo? Via de regra isso é verdade, pois quem tem uma dose maior de imaginação, determinação, malícia, ou mesmo má fé, consegue por vezes ter sucesso, mesmo que tenha levado a fama por algo que não fez ou inventou. Assim veremos um aeroplano ter de ser catapultado para “voar”, e tudo isso sem testemunhas. Internacionalmente os irmãos Wright ficaram com a fama de inventar o avião em detrimento ao feito histórico do nosso patrício Santos Dumont, que decolou em Paris frente a centenas de testemunhas.

Da mesma forma se sucede no mundo das armas de fogo. A primeira pistola semi-automática (Borchardt) é fato sabido, não foi a “primeira”, sendo a austríaca Schönberger (patenteada em 1890) a ter esta primazia, embora não tenha sido produzida em grandes quantidades com pouco sucesso comercial. Reza a lenda que a primeira arma a usar o tambor basculando lateralmente (swing out) foi um revólver de fabricação da Colt (dizem que Samuel Colt teria tido a idéia da sua arma, ao ver um dos modelos do primitivo revólver de pederneira de Elisha Collier, lançados décadas antes de seus modelos Paterson – armas de tambor, aliás, são comuns na história medieval ainda em sistema de mecha) em 1889, certo??? Mas... E se eu dissesse que há indícios de que uma esquecida (e pouco conhecida) arma teria lançado o sistema ainda no tempo dos Lefaucheux? Espantados? Esta arma jurássica que protagonizou um sistema de extração e remuniciamento que ainda hoje não tem rival para os revólveres se chamava revólver Guerriero.

O revólver Guerriero (desenho do autor)

Em princípios de 1860, Alexander Guerriero, Conde de St. Ange, patenteia na Itália um revólver desenhado por ele conhecido depois como revólver "italiano". A arma chegou a ser aprovada pela comissão da Regia Marina Italiana, e reconhecida com um prêmio do Instituto Real da Lombardia, mas como seus esforços para produzi-la foram infrutíferos, transfere-se então para Liège, que na época já é um centro de importância vital na produção de armas de fogo, onde a sua arma, será manufaturada por Breuer (provavelmente Eugene Breuer, de Liège, operava no nº 86 da Rue Louvex – aliás, na arma se estampava na lateral direita à frente do tambor: Sistema Italiano e uma punção com um brasão no qual estão contidas as iniciais do nome do inventor e o de Breuer). Na mesma época a arma é patenteada na Inglaterra sob nº 628/1863.

Os militares franceses se interessam pela arma prevendo talvez uma possível substituição aos então regulamentares revólveres Lefaucheux 1858. Vários revólveres são testados pela comissão de testes de Vincennes no período entre 1864 e 1865. Para proteger sua invenção Guerriero deposita em Paris em 1866 a patente do seu sistema sob o N° 71.326. Finalmente em 1869 a comissão de testes acaba com as pretensões de Guerriero, encerrando as provas com o veredicto desfavorável à arma: apesar das inovações, o mecanismo era frágil para uso militar, com tendência a emperramentos e com uma ação dupla muito dura, sendo a arma muito pesada (1.500g).

Mas finalmente, que arma era esta? No geral tratava-se de um revólver tipo Lefaucheux de armação fechada, de construção bastante sólida (sendo isso já um grande diferencial dos concorrentes de então, que usavam em numerosos casos armações construídas em mais de uma peça e open top), municiado com cartuchos de pino de calibre 15 mm. A grande novidade estava NUM TAMBOR BASCULANTE À DIREITA (como seria curiosamente usado anos depois no revólver d’ordonnance modèle 1892, e em vários outros modelos franceses e belgas), retido por um pino colocado à frente da armação, havendo uma vareta pra expulsão dos cartuchos, mantida travada por uma mola debaixo do cano. Na parte traseira do cilindro havia uma espécie de placa circular do mesmo diâmetro, com uma dobradiça e contendo uma mola que a abria automaticamente descobrindo as câmaras, no momento em que o tambor era deslocado da sua posição original. Esta peça circular recobria o culote dos cartuchos protegendo os pinos (espoletas), e ainda continha em seu corpo a catraca para proporcionar o giro. O cão atravessava um grande escudo de recuo, que aumentava a proteção dos cartuchos contras choques (as armas do tipo Lefaucheux eram muito chegadas a disparos acidentais em quedas), tendo ainda uma posição “half-cocked” utilizada na hora de municiar a arma.

Depois do rápido ocaso de suas pretensões militares, o revólver "italiano" terá como destino o mercado civil, com uma grande variedade de tamanhos, calibres, e acabamentos, terminando por desaparecer silenciosa e injustamente nas brumas da história. A maior (e talvez única) virtude desta arma, o seu sistema de tambor basculante, foi esquecido depois do fim deste, embora possamos citar como contemporâneo o revólver de Warnant “Le Regent” patenteado já em 1885, com tambor basculando também a direta. Esta arma foi fabricada na Bélgica por Jean Warnant, e na Espanha em Eibar, por Domingo Alberdi em 1885. (o uso de tambor abrindo à direita seria moda da época? Ou necessidade dos cavalarianos que usavam a mão esquerda para usar a arma de fogo? Pois na direita se usava o sabre). Mais de 20 anos depois, a empresa americana Colt compraria a patente de um jovem engenheiro chamado Borchardt, lançando em 1889 com estrondoso sucesso “o primeiro” revólver do tipo "swing out", ou seja, com tambor rebatível lateralmente.

Fábricas Antigas do Brasil: A Caramuru

Caramuru era o apelido de um famoso personagem da história do Brasil, Diogo Álvares Correia (nascido em Viana do Castelo, Portugal, 1475, e falecido em Tatuapara, na Bahia, em 5 de outubro de 1557). Foi um náufrago português que segundo consta, assustou os índios que tentavam aprisioná-lo, com um disparo de seu arcabuz, sendo chamado de “Caramuru” (dentre tantas traduções românticas “deus do trovão”, “homem do trovão“), embora novas pesquisas apontem que o nome Caramuru se referia na verdade uma espécie de agressiva moréia, uma espécie de peixe ósseo, angüiliforme, da família dos murenídeos. Caramuru passou a morar entre os índios, e até casou-se com uma a índia: Paraguaçu. Foi o primeiro português a residir em terras do estado da Bahia, em 1510.

A famosa marca comercial da Caramuru, presente também nos fogos de artifício.

Caramuru é ainda considerado por muitos como o fundador do histórico município baiano de Cachoeira, situado as margens do rio Paraguaçu (e vizinho ao município de São Félix, duas cidades dividas apenas pelo rio, e unidas por uma ponte inglesa de ferro armado, feita a mais de 100 anos).

A marca de comércio CARAMURU foi usada pela F.A.M- Fábrica De Armas Modernas (empresa distinta dos originais fabricantes dos fogos Caramuru, de quem adquiriu o direito de usar a marca e alguns projetos já prontos), que era de propriedade do empresário e designer Miguel Raspa. Atuou nas décadas de 60 e 70, na cidade de Jacareí, interior do estado de São Paulo, produzindo neste período bons revólveres com a armação em aço.

Revólveres no cal. 22 Long Rifle :

  1. Modelo R1, dotado de cano octogonal de 2,6 polegadas (os canos destas armas tinham 5 raias e eram forjados pela Chapina), com a liberação do tambor feita por um pino situado diretamente no retém do cano, travando a “caneta” do extrator. A capacidade do tambor era de 7 tiros. Revólver R1, em calibre .22LR

    Revólver R1, em calibre .22LR

  2. Modelo R7, basicamente o modelo R1 redesenhado, com empunhadura mais larga, e liberação do tambor efetuada por um botão deslizante, na lateral. Houve mudanças no desenho dos canos, que passaram a ser redondos ao invés do perfil octogonal. Os canos deste modelo tinham comprimentos que iam de 1 até 6 polegadas. Revólver R7, também em calibre .22LR

    Revólver R7, também em calibre .22LR

Revólveres no cal. 32 S&W Long :

  1. Modelo R6, com canos variando de 2 ou 3 polegadas de comprimento, capacidade de 6 tiros.

Armas longas :

  1. Carabina modelo K1, calibre .22 LR e capacidade de apenas 1 tiro.
  2. Carabina modelo CLK, calibre .22 LR, estranhamente dotada de alma lisa, e capacidade de 1 tiro.

  3. Carabina modelo K5, também em calibre .22 LR e com ação de ferrolho tipo Mauser, capacidade de 5 tiros. Os canos desta arma eram feitos em Itajubá, subcontratados pela Imbel.

  4. Espingardas de caça conhecidas como modelo 62, de 1 tiro, com cão externo, em calibres 28, 32, 36, e 40. Curiosamente estas armas eram sub-contratadas e produzidas pela empresa Fundição LERAP.

  5. Espingardas de pressão em calibre 4,5 mm.

A empresa fez, também, algumas armas que não passaram de protótipos, tais como o revólver R3 em calibre .38 SPL , bem como uma submetralhadora, baseada no desenho da UZI (de fabricação israelense), em cal. 9mm Parabellum.

Parou de produzir armas de fogo em meados da década de 1970, passando a produzir desde então, peças de automóveis.

Fábricas Antigas do Brasil: A Lerap

A Fundição e Indústria de Armas Lerap foi registrada na Junta Comercial do Estado de São Paulo em 16 de junho de 1939 com o escopo de produzir peças em aço e ferro, canos e tubos, torneiras, válvulas e artigos domésticos com acabamento estanhado ou esmaltado. Situava-se na cidade de São Paulo, no bairro do Brás, próximo à antiga Estrada de Ferro Central do Brasil.

A Lerap foi uma das mais antigas fábricas de armas do Brasil e segundo consta, LERAP é a abreviatura do nome dos alemães que a fundaram, Lemcke e Rapp.

A Lerap é uma das grandes incógnitas da indústria nacional, dela não se tendo absolutamente nenhuma informação. Em 1942 já há uma solicitação de autorização para exportar modestas espingardas de antecarga de um cano, de alma lisa, bem como 100 ouvidos para reposição, a ser enviados para o Equador, com anuência do Sr. Ministro Da Guerra.

A Lerap fabricava garruchões e espingardas de caça de cano simples em vários calibres (usavam um sistema de trancamento idêntico ao das espingardas belgas “Leclerc”, com a chave serpente ou “Snake Key” parecendo ser uma possível cópia deste modelo), garruchas de dois canos (do tipo tradicional com canos paralelos, com o mérito de concorrer na época com diversos produtos importados, notadamente da Bélgica e Espanha) nos calibres .320 e .380, de pólvora negra.



A garrucha Lerap em calibre .320

A Lerap também chegou a fabricar espingardas sob encomenda para a fábrica de armas Caramuru. No final de sua produção ainda tentou produzir algumas armas mais bem cuidadas que os seus tipos tradicionais, como espingardas de canos sobrepostos com coronhas no estilo inglês, monogatilho, e réplicas das clássicas pistolas de bolso tipo Remington Derringer, que creio não passaram de protótipos. Encerrou suas atividades por volta de 1964.

reclame publicitário de época mostrando perfil da espingarda Lerap

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Fábricas antigas do Brasil - I.N.A


A história da Indústria Nacional de Armas é no mínimo bem colorida, e começa longe do Brasil no início da Segunda Guerra Mundial, quando os alemães invadiram a Dinamarca. Nesta oportunidade lá estava, em missão técnica, um oficial do nosso Exército: Plínio Paes Barreto Cardoso. Os dinamarqueses confiaram a ele alguns projetos de armas (inclusive o de uma metralhadora leve), que são trazidos por ele ao Brasil, para longe das mãos dos nazistas. Finda a Guerra, restituídos os projetos, o Dansk Industri Syndikat cede por gratidão os direitos da submetralhadora Madsen modelo 1946. Assim em 1949, presidida pelo então General R-1 Plínio Paes, é fundada a Indústria Nacional de Armas - INA, no bairro de Utinga, na cidade de Santo André, Estado de São Paulo.


A sub-metralhadora INA, em calibre .45ACP, adotada pelo Exército Brasileiro, com sua coronha articulada na posição aberta (foto: Manual de Operação EB-1956)

O carro chefe de sua produção sempre foi a submetralhadora M1950 (uma modificação da já citada Madsen M1946, sendo as diferenças principais da original dinamarquesa a mudança do calibre, de 9 mm Luger para o 45 ACP, embora isso não fosse propriamente um problema, pois dizem que a própria Madsen fez protótipos nesse calibre. Além disso, a alavanca de manejo foi transferida da parte de cima da culatra para a lateral direita. Posteriormente surge o modelo 53, com o alojamento do carregador mais longo e reforçado. Estas armas foram padrão, por longos anos, no Exército (de 1950 a 1972) e nas polícias brasileiras. A sub-metralhadora INA possuía uma cadência de cerca de 600 tiros por minuto, não tinha dispositivo de tiro seletivo e funcionava com o princípio de ferrolho (culatra) aberto (embora a sua relativamente baixa cadência de tiro permitisse que um atirador, com certo treino, desse rajadas curtas; bastava para isso ter alguma intimidade com o gatilho da arma).

A arma também não permitia o disparo com uma só mão: uma tecla de segurança, posicionada junto ao retém do carregador, tinha que ser pressionada com a outra mão, obrigatoriamente, para que a arma disparasse. O peso da arma era de 3,400 Kg, comprimento total de 74,9 mm e comprimento de cano de 214 mm.

Ainda deve-se ressaltar que esta submetralhadora granjeou uma fama, digamos que injusta, entre os seus usuários, de ser pouco confiável em ação, pois em seu uso ocorriam muitas falhas de tiro (negas), chegando ao ponto de que as iniciais do fabricante (I.N.A.) se tornaram uma cruel alcunha: "Isto Não Atira". Verdade seja dita, a culpa era da munição .45 ACP nacional, de baixa qualidade, munição esta que inclusive acompanhou a arma quando da sua entrega às forças policiais, piorando assim a fama da arma, devido à idade dos componentes dos cartuchos.


Vista explodida da arma, onde se nota a extrema simplicidade. A armação é de aço estampado, que se abre em duas metades articulada pelos mesmos parafusos que fixam a coronha, de tubo de aço. A troca de cano nesta arma era operação bastante simples.

Revólver INA em calibre .38SPL, modelo de exportação para a Interarms, USA

A Indústria Nacional de Armas se destacou na produção de armas que ficaram bem populares no Brasil, como a conhecida série dos revólveres “Tigre”, baseados no design dos Smith & Wesson mod. 10 (Military And Police), em calibre .32 S&W Long, com várias versões da localização do desenho do citado felino, na lateral da armação, variando ora para o lado esquerdo, direito, ou de frente (ironicamente, o “Tigre” era chamado de tudo, menos tigre: ”onça”, ”leopardo”, “pantera”, ou coisa pior: “gato”, nos meios mais leigos).

A partir de 1966 surgem os raros exemplares em .38 SPL com 2, 3 ou 6 polegadas de cano, sendo bastante exportados principalmente para o mercado norte-americano. Na época, haviam muitas restrições dos militares quanto aos calibres para uso pelos civis no Brasil, mas mesmo assim a INA chegou a produzir protótipos de um revólver em calibre .357 Magnum que, infelizmente, não chegou a linha de produção normal.


AS PISTOLAS INA


A INA Chanticler, em cal. 6,35mm Browning (.25 Auto) - desenho do autor

A INA fabricou também uma pistola semi-automática de ação dupla, o modelo "Chanticler", que na verdade era uma versão com algumas modificações da pistola CZ-45, da afamada firma tcheca Česká Zbrojovka, e no mesmo calibre da original, o 6,35mm (uma versão maior desta arma, em 7,65mm, não saiu do protótipo). Curiosamente, Chanticleer ou Chanticler é o nome de um galo esperto que aparece nas fábulas medievais dos “Contos de Canterbury” - tal como em “Chanticleer e a raposa” e, de fato, a marca de um galo estilizada aparece estampada no plástico da tala de empunhada esquerda desta pistola.

Outra curiosidade sobre a Chanticler era que o 1º tiro (e apenas ele) poderia ser em ação simples, sendo os subseqüentes obrigatoriamente em ação dupla.

Derivada dela houve também uma versão melhorada, originalmente destinada para exportação aos EUA. Esta versão, que usava a marca comercial "Tiger", possuía uma trava de desmontagem no meio da armação, sendo que seu desenho foi, na verdade, uma adequação às novas e rígidas regras norte-americanas do Gun Control Act de 1968. A INA fabricou também alguns (raros) exemplares desta arma que foram destinados às vendas internas.

Outra lenda urbana (ou não?) corrente entre os colecionadores seria que a INA teria fabricado protótipos de pistolas tipo Colt 1911 em .45 ACP, embora não se conheçam fotos ou o paradeiro das mesmas...

A CZ-45, fabricada na atual República Checa, cal. 6,35mm, na qual a INA Chanticler foi baseada.

O fim das atividades da INA, em 1972, foi inglório. A fábrica, que no final da produção ocupava também um terreno em Ribeirão Pires, foi lentamente estrangulada por dívidas, insolvência de órgãos públicos (existem até teorias que “forças ocultas” governamentais fizeram de tudo pra evitar que a INA sobrevivesse), e sem poder mais exportar, acabou falindo.

Winchesters a La Paella

A Espanha sentia, no início da década de 1880, uma urgente necessidade de procurar novas armas para substituírem as suas regulares, que no momento eram milhares de fuzis e clavinas de retrocarga e tiro simples, como os Remington rolling block e outros modelos com mecanismo do tipo Peabody e Berdan de alçapão.


A Tercerola Winchester modelo 1873

A Cia. Winchester, habilitando-se à concorrência, apresentou ao militares espanhóis algumas versões de seu modelo 1873 (conhecida por “papo amarelo” aqui no Brasil), sendo que as seguintes variantes dessas armas eram um fuzil deinfantaria, uma carabina para uso da cavalaria e um mosquete para uso das tropas de artilharia e corpos auxiliares. Como sempre, a rapidez de tiro e a facilidade de municiamento agradaram, mas o mecanismo “toggle action” foi considerado delicado para o uso militar.

Ao que parece, mesmo que as dúvidas prevalecessem, a arma havia agradado. Assim, em 1879, chegam 230 unidades; esta versão tinha cano de 22 polegadas, pórtico de carregamento com um rebaixo à frente, telha integral cobrindo o cano quase até a ponta, ponteira de metal na frente da telha, que abrigava uma inusitada vareta de limpeza metálica inserida no interior do fuste, sendo este o único modelo da Winchester com esta característica (consta como listado no catálogo da fabricante como “modelo espanhol”), e não portava baioneta. Outros 100 mosquetes, com o mais tradicional cano de 30 polegadas chegaram em 1891. Todas estas armas eram em calibre 44-40 (44 WCF).

Os espanhóis não utilizariam a arma americana nas tropas de 1ª linha, pois os seus testes deram correta preferência ao fuzil Mauser como arma longa regulamentar. O modelo “Turco/Belga” de 1889 foi adotado em 1892, com as modificações requeridas, que dariam origem à soberba arma conhecida como Mauser modelo espanhol 1893 (praticamente o mesmo modelo que seria adotado pelo Brasil, ligeiramente modificado, em 1894).

Para não fugir a regra, em 1891, iniciava-se a fabricação sem compra de patente ou direitos, de uma cópia espanhola da Winchester 1873, ficando a manufatura a cargo da Real Fábrica de Oviedo, com uma produção, segundo consta, de mais ou menos 2.500 unidades no período 1891/92 (daí a marcação “Artillería - Oviedo 1892”).

Alguns autores preferiram chamá-la de carabina do sistema Winchester modelo 1876, pois esta já reuniria algumas características dos mosquetes do posterior modelo Winchester 1876, embora o modelo original NUNCA tivesse usado o calibre 44-40. Este (1876) era, na prática, um modelo 1873 com caixa de culatra “esticada” para comportar calibres mais longos e com maior energia cinética como o 45-60 WCF, 45-75 WCF, e o 50-95 WCF, a denominação oficial [1] era “Tercerola Winchester Modelo 1873”. As armas seriam destinadas ao 14º Tercio da Guardia Civil (substituindo a tercerola Remington mod. 1871) e a Escolta Real (uma fonte militar espanhola ainda cita a Seção montada do Colégio de Guardas Jovens de Valdemoro.)

Nos aspectos gerais, o funcionamento e a aparência eram de um mosquete Winchester 1876, excetuando-se, claro, alguns detalhes.

O cartucho conhecido na Espanha como 10,6 mm para Tercerola Winchester (os espanhóis, em alguns casos de armas oficiais, curiosamente ligavam o nome do cartucho a arma que o disparava; assim não teremos o .44 Winchester, mas sim .44 para carabina Winchester, bem como 9 mm para a pistola Campo Giro e não 9 mm Campo Giro, etc). As características gerais desta munição eram praticamente as mesmas do cartucho original 44-40, com projétil de chumbo e carga de projeção de pólvora negra condizentes. Vale dizer que este cartucho inaugurou na Espanha a era dos cartuchos metálicos de base sólida integral ao estojo (e não encaixada e depois soldada), diferenciando-se pela maior segurança no momento do disparo de outros tipos usados anteriormente (como os Berdan 11 mm, Remington 11 mm, e os do revólver 1884).

Apesar do modelo 1873 usar cartuchos originalmente de pólvora negra, segundo dizem, a sua robustez permitia o uso de cartuchos carregados com pólvora sem fumaça.

Suas características técnicas eram:

  • Comprimento: 985 mm
  • Comprimento do cano: 559 mm (22 pol) de formato cilíndrico.
  • Peso: 3,46 kg
  • Calibre: 10.6 mm (44-40)
  • Capacidade do carregador: 10 cartuchos.
  • Raias: 5 helicoidais
  • Alça de mira: De corrediça graduável de 200 a 800 metros.
  • Sistema de funcionamento: Ação de Alavanca (lever action) semelhante ao sistema da Winchester Modelo 1873, mas com características da caixa de culatra aparentadas ao da carabina Winchester modelo 1876.

A carabina Tigre


A carabina de repetición "Tigre" era uma cópia, com certas modificações, da carabina Winchester modelo 1892. Foi produzida com algum sucesso pela firma Gárate, Anitúa y Cía de Eibar, a partir de 1923. A principal diferença residia na alça de mira, que parecia com a da carabina Mauser espanhola 1895, de regulagem “corrediça” graduada até 1000 m, bem como a massa em “V” invertido, montada sobre a braçadeira do cano; interessante notar que aparecem, as vezes, algumas versões com a massa de mira colocada no cano e a alça de mira em degraus, mais similar a das Winchesters ( o que nos levaria a pensar que houveram diversas versões no tempo que a arma ficou em fabricação?). Foi bem popular na Espanha para caça e defesa rural, sendo usada inclusive pela Guardia Civil, Policía de Ferrocarriles, e Corpos de Guardas Juramentados.

Detalhes da massa de mira e braçadeiras em versões diferentes: a variação da direita possui a mira montada na própria braçadeira.

Foram exportadas também para alguns países da América do Sul, inclusive o nosso, e até para os EUA. O calibre era o mesmo do modelo original: .44-40/44 WCF, conhecido na Espanha pela denominação civil de 44 Largo (longo). Mas deve-se ressaltar que nesta época já eram carregados com pólvora sem fumaça. Comenta-se que seria uma boa cópia, bem robusta e mais barata que a inspiradora. Apesar de difícil de ser ver, não é impossível de se encontrar no Brasil um exemplar em bom estado mecânico, mas a oxidação certamente estará apenas sofrível. Na arma se encontra marcado: "Garate Anitua y Cia Eibar-Espana. TIGRE 44L”. Em alguns modelos ao que parece haveria a figura de um felino estampado na caixa da culatra.

Portanto, boa sorte e boa caçada; se encontrar uma, você terá uma Winchester sabor paella.


Vista lateral da arma.

Suas características técnicas eram:

  • Comprimento: 950 mm.
  • Comprimento do cano: 510 mm (20 pol. como padrão, mas ao que parece foi produzida em diversos comprimentos) de formato cilíndrico.
  • Peso: 2,5 Kg
  • Calibre: 44-40
  • Capacidade do carregador: 12 cartuchos.
  • Raias: 6 dextrógiras
  • Alça de mira: De corrediça graduável até 1000 metros.
  • Sistema de funcionamento: Ação de Alavanca (lever action) semelhante ao sistema da Winchester Modelo 1892.

[1] Pela Real Orden (R.O.) de 2/12/1893.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O desconhecido e "perigoso" calibre 9mm Kurz


O calibre .380 ACP (Automatic Colt Pistol) já é antigo conhecido de todos aqui no Brasil (ou ao menos deveria ser), pois seu uso para civis foi liberado no final de década de 1980. Este cartucho foi desenvolvido pelo famoso projetista John Moses Browning, tendo feito seu “debut” no mercado americano com a pistola Colt mod. Pocket Auto de 1908 (que derivava da Colt Mod. 1903 em calibre 7,65 mm, outra munição popular de Browning), e na Europa foi lançado com a belga FN Mod. 1910, no ano de 1912.

Foi introduzido como munição específica para pistolas de defesa (de pequeno tamanho, em ação blowback), sendo que, em tese, este cartucho e o 9mm Makarov são os maiores cartuchos para uso nestes mecanismos desaferrolhados – qualquer dúvida sobre isso ver o artigo Balística Interna: Operação em Armas Semi e Automáticas. É um cartucho popular, de baixa pressão, com projétil com diâmetro de 9,04 mm e estojo tipo rimless, de paredes retas, com comprimento total de 17,27mm. Dispara projéteis geralmente ogivais com massa que varia de 5,8 g a 6,1 g (entre 85 e 95 grains), com uma velocidade média de saída na boca do cano de 290 m/s.

O 380 ACP é considerado como sendo o calibre mínimo para uso em defesa pessoal, inferior em potência ao .38 Special com cargas + P, ou até mesmo em algumas configurações padrão. Apesar de ser menos potente para a função, chegou a ser usado como cartucho militar oficial de vários exércitos (dentre os mais importantes, a Itália, a Suécia, e a Tchecoslováquia) foi também cartucho oficial de várias polícias européias. Foi, e ainda é, usado em armas de marcas famosas como Astra, Beretta, Bergmann, Browning, Colt, CZ, FN, Frommer, Lhama, Remington, Savage, Star, Taurus, Walther, e até mesmo em algumas submetralhadoras como as Ingram MAC-11 e a CZ Skorpion.

Mas se o .380 é um calibre sobejamente conhecido, constando seus dados em inúmeros livros e páginas da web especializados em munição, escrever sobre ele não seria chover no molhado? E, afinal, o que tem a ver o 9 mm Curto (ele é chamado assim para diferenciá-lo de outro calibre desenhado por J. M. Browning em 1903, o 9 mm Browning Long), com este Calibre 9 mm Kurz? Bem, apenas porque (como certamente a maioria deve saber) O .380 ACP é o mesmo 9mm Kurz (kurz significa ''curto'', em alemão). Acontece que como outros calibres, o .380 teve e tem várias denominações, a depender da língua do país usuário, e das características comerciais do momento. São eles: .38 Colt Auto Hammerless (mas não confundir com o .38 ACP, que é outro cartucho, mais longo), 380 C.A.P.H. , .380 Browning Short, .380 Auto, .380 ACP (Automatic Colt Pistol), .380 Auto Webley, 9 x 17 mm, 9 Beretta m. 1934, 9 mm Browning, 9 mm Browning Short, 9 Browning kurz, 9mm Court (em francês), 9 mm Corto (em italiano), 9 Holland P.S. nº21, 9 mm Kratak (em iugoslavo), 9 mm Kurz, 9mm Scurt (em romeno), 9 pistolen-patrone 400 (h), 9mm selbstlade – pistole, 9 mm Short, DWM 540, GR 929, SAA 4865.

Sim, todos estes são nomes do nosso amigo .380 ACP expressos tanto em centésimos ou milésimos de polegadas (sistema americano e inglês), ou diretamente em milímetros no sistema métrico europeu continental, usados em diferentes épocas. Mas, e daí? Daí que, na verdade, o que motivou este texto foram notícias que infelizmente o desconhecimento técnico de algumas autoridades policiais Brasil afora, em vários, repetidos e lamentáveis episódios têm levado ao cárcere pessoas detidas em flagrante pela “posse ou porte ilegal” de armas timbradas como sendo do perigoso e desconhecido calibre 9mm Kurz. Agem então os agentes da lei como se este calibre estivesse inserido no Capítulo III, Art. 16. do R-105, entre as armas de uso restrito, talvez por simples desconhecimento de certas facetas da oplologia, terminologia de cartuchame, e balística forense.

Geralmente as armas que mais se encontram marcadas como 9mm Kurz em nosso país são as da marca Walther, nos modelos PP, PPK, e PPKS. Em muitos dos casos dessas apreensões, algumas destas armas estavam registradas legalmente, o que piora o absurdo legal. Por outro lado, há casos de outras armas alemãs marcadas como 9mm Kurz, mais antigas e mais raras, que nem por isso são impossíveis de se encontrar nestas paragens. Calibre ilegal não é, pois foi liberado pela Portaria n° 1237, de 01 de dezembro de 1987, e bastaria que as autoridades policiais, ou seus prepostos, lessem a lei com mais cuidado (pois a antiga portaria já cita esta denominação), que tal dúvida sobre a legalidade do 9mm Kurz seria sanada imediatamente:


PORTARIA MINISTERIAL Nº 1237

Exclui pistolas semi-automáticas calibre 9mm curto e respectivas munições da classificação de uso proibido e as inclui na classificação de uso permitido.

O ministro de estado do exército, de acordo com o disposto nos art. 21 e 159 do regulamento para a fiscalização de produtos controlados (R105), aprovado pelo decreto n° 55.649, de 28 de janeiro de 1965, e com o que propõe o departamento de material bélico, resolve:

1. excluir as pistolas semi-automáticas calibre 9mm curto (9mm "kurz", "corto", "short" ou .380 auto) e respectivas munições da classificação de uso proibido constante do art. 161 do R-105.

2. incluir o citado material na classificação de uso permitido, constante do art. 162 R-105.

Leônidas Pires Gonçalves, Ministro do Exército.

Esta antiga lei foi englobada no R-105 reformulado de 20 de novembro de 2000, no Capítulo III, Art. 17. na parte sobre armas de uso permitido:

I - armas de fogo curtas, de repetição ou semi-automáticas, cuja munição comum tenha, na saída do cano, energia de até trezentas libras-pé ou quatrocentos e sete Joules e suas munições, como por exemplo, os calibres .22 LR, .25 Auto, .32 Auto, .32 S&W, .38 SPL e .380 Auto.

Às vezes até a simples posse de cartuchos (geralmente alemães) timbrados como 9 mm K (sendo o “K “ a abreviatura de Kurz, logo 9 mm curto), é o suficiente para a prisão, pois o desconhecimento técnico obriga a seguinte dedução: “se é um “9mm K” não pode ser o nosso anêmico .380...”

Então que fique bem claro que o 380 ACP é o mesmo 9 mm Kurz timbrado nas pistolas e cartuchos alemães, que tantas vitimas de coação ilegal fez entre civis, e que ofuscou carreiras de delegados e promotores por prisões equivocadas (no tocante apenas a ser classificado como calibre de uso “restrito”, fique isso bem claro...), por um mero detalhe técnico de classificação da nomenclatura, mas não de somenos importância no esclarecimento da verdade num laudo pericial, ou num processo penal. Este artigo não trata de criticar o trabalho dos nossos abnegados policiais, sempre tão relegados a segundo plano, operando em condições difíceis, ou ao de qualquer agente público, tem sim, como único escopo, auxiliar e prestar um esclarecimento eminentemente técnico, um auxilio ao verdadeiro trabalho policial ou judiciário abalizado na técnica e na lei.

Espero sincera e modestamente ter acrescentando algo à este polêmico assunto.