Mostrando postagens com marcador Oplologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oplologia. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de julho de 2009

A Pistola Schönberger

A 1ª variante da pistola Schönberger


No mundo das armas de fogo da mesma forma que no mundo real, os pioneiros abrem o caminho para seus congêneres a duras penas e seus nomes não raras vezes são cobert
os pela poeira do esquecimento. Compartilhando do injusto limbo do ostracismo da memória oplológica com o revolucionário revólver Guerriero, uma arma que lançou o sistema de tambor basculando lateralmente (“swing out”) antes do celebrado modelo do Colt 1889 (ver artigo sobre ele neste blog), está a raríssima pistola semi-automática austríaca Schönberger.

A primazia de ser a “primeira” pistola semi-automática de sucesso comercial cabe a Alemã Borchardt, mas é fato sabido que ela não foi exatamente a “primeira” arma deste tipo. Na cronologia da evolução das armas automáticas Hiran Maxim no ano de 1883 experimentava uma carabina Winchester 1866 modificada para ser arma de funcionamento semi-automático, e logo após viria à luz em 1885 a sua eficaz metralhadora, a primeira totalmente automática. Obviamente que depois do sucesso de seus projetos e os experimentos de outros inventores, logo se pensou em usar a nova tecnologia que aproveitava o gás residual do disparo para movimentar o mecanismo, para as armas de punho, assim surgem as pistolas semi-automáticas, das quais para ser sincero nem mesmo a Schönberger teria sido a primeira, mas o “elo perdido” primitivo seria a arma criada na França pelos irmãos Clair (Jean-Baptiste, e Benoit Clair). Os Frerés Clair possuíam um ateliê de armas fundado por seu pai em 1838, a Manufacture mécanique d'armes de luxe et de guerre de Saint Etienne, na qual produziram armas brancas, armas de fogo, canos raiados para fuzis e armas de ar. Os experimentos do criativo Benoit incluíram dentre outros uma pistola e um rifle ditos “automáticos” (respectivamente patentes de 1887 e 1888). Desta pistola quase nada se sabe, exceto que provavelmente era do tipo gás-operada (por recuo Indireto de Gás), muito pesada, e usava um cartucho experimental calibre 8mm derivado diretamente do cartucho M1882 suíço de calibre 7.5mm (o 7.5 mm Swiss Army Revolver, com diâmetro de aro de 10.34 mm, certamente cartucho difícil de trabalhar numa arma de funcionamento automático, e de fato há relatos que era bem propensa a emperrar de maneira constante), tinha capacidade de cinco cartuchos carregados com a novíssima pólvora sem fumaça. De sua autoria também é um fuzil de caça de repetição que alcançou certo sucesso o “Clair-Eclair". Os dados e a aparência da pistola de Benoit Clair desapareceram na história, sendo raramente citada.

Tendo feito justiça ao citar este modelo, vamos finalmente à pistola Schönberger-Laumann, tão esquecida e misteriosa quanto a visionária arma projetada pelos irmãos Clair. A Schönberg
er M1892 foi patenteada no império Austro-húngaro em 17 de novembro de 1890 por Joseph Laumann, e nos EUA em 1892. Apesar da denominação do modelo levar o ano de 1892, não se sabe com certeza se entrou em produção efetiva pela Oesterreichische Waffenfabrik-Gesellschaft, Steyr, nesta data (fala-se até que o real início de fabricação teria sido em 1895, depois da patente do desenho de um segundo subtipo desta arma com um magazine melhorado). A real ‘paternidade’ do projeto gera outra série de controvérsias, tendo os direitos sobre o desenho pertencido por dois anos a Joseph Laumann, que os teria vendido aos irmãos Schönberger (de quem se diz que também teriam participado do projeto, fossem um dos diretores da Steyr, ou talvez seriam os financistas de Laumann), de qualquer forma a arma é também conhecida pelo nome de todos os envolvidos...

Sobre a descrição técnica da arma, o que podemos dizer é que inicialmente era uma arma de repetição manual que se converteu em arma de acionamento automático com ação por recuo direto simples retardado, (fecho do tipo delayed blowback). A armação era sólida com um carregador monofilar municiado por um clipe de 5
tiros situado à frente do guarda mato, herança dos fuzis militares de então, este tipo de alimentação ainda seria moda nas pistolas subsequentes como a Mauser C-96 e diversas de desenho de Bergmann. Na lateral tinha uma alavanca para armar o mecanismo de disparo (bastante delicado), que também seria utilizada depois esporadicamente em alguns modelos de pistolas.

O mecanismo era deveras sui generis
dentre as pistolas, pois no momento do disparo a culatra era bloqueada firmemente por um ferrolho cilíndrico com um único fecho composto por um braço bifurcado em um excêntrico, a cabeça do ferrolho sustentava o aro inteiro do cartucho, quando a arma é disparada a espoleta colocada profundamente dentro do estojo recuava devido a pressão da explosão da pólvora, cerca de 1/18 de polegada dentro de um canal até ser parada pela face do ferrolho, mas era o suficiente para atingir o pino percussor empurrando-o para destravar o excêntrico, deixando o ferrolho livre para voltar, movimentando em seguida o braço bifurcado contra uma mola, fazendo-o fechar o ferrolho e deixando a arma em posição de novo disparo.


O Cartucho que a Schönberger usava tinha calibre nominal de 8 mm e foi projetado em 1890 e reformulado em 1892 para uma pistola desenhada supostamente por Konrad Von Kromar (da qual não se tem muitas informações), sendo intercambiável com o 8mm Steyr (8x23R Steyr). Era do tipo “garrafinha”, Rimless, como dito acima tinha a espoleta colocada bem internamente, e ficou conhecido como 8 mm Schönberger, ou ainda 8 mm Selbstlade Pistole System Kromar, 8 mm Schönberger-Kromar, 8 mm Kromar Revolver, 8 x 22,5 R Revolver, GR 350, SAA 3775 e EB 091. O projétil tinha diâmetro real de .323 milésimos de polegada, e peso de 125 grains.

A Schönberger apesar de ser uma arma portátil e até prática comparada com a subseqüente pistola Borchadt (os dados gerais da Schönberger se perderam, mas a longitude total da arma sabe-se chegava a 20 cm), não decolou, sendo fabricadas cerca de cem unidades (ou apenas algumas dezenas, não se tem um consenso sobre a quantidade total produzida). Foi substituída na linha de montagem da Steyr pela pistola Mannlicher em 1894, um projeto obviamente superior.

A pistola Schönberger-Laumann teve esta primazia, a de ser a pioneira arma de mão que usou a força dos gases dos disparos para movimentar um mecanismo de maneira semi-automática em ciclo completo, embora não tenha sido produzida em grandes quantidades, com pouco sucesso comercial, abriu caminho a suas congêneres mais efetivas, robustas, e como um velho mestre que reconhece a capacidade dos próprios discípulos, cede-lhes o espaço e lhes dá a missão de continuar o caminho, furtivamente desaparecendo da história da Oplologia entrando para as brumas da lenda.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A arma de Milemete

Walter de Milemete, este nome evoca uma figura importante para a Oplologia e quase desconhecida no Brasil. Em um manuscrito de 1326 reputado como de sua autoria, intitulado "De Nobilitatibus, Sapientis, et Prudentia Regum" (“sobre a fama, sabedoria e educação dos reis") e apresentado ao Rei Edward III quando da sua ascensão ao trono da Inglaterra, aparece numa iluminura (reproduzida acima) a primeira representação visual conhecida de um rudimentar canhão (ou arma de fogo).

Milemete, pelas poucas informações que se tem dele, foi um Mestre, estudioso, eclesiástico e pároco no condado da Cornualha (situada na extremidade do sudoeste de uma península da Inglaterra), e seu famoso manuscrito destinado a aprimorar a educação do Rei Edward III (que sucedeu Edward II depois de seu assassinato em 1327), versando sobre temas gerais como filosofia, política, religião, virtudes morais, o bom governar, a administração pública, as artes da guerra, etc, está conservado na Biblioteca da Igreja de Cristo em Oxford. O texto era ricamente ornado com desenhos variados (iluminuras) mostrando heráldica, cenas de flerte, combates, torneios, caçadas, animais mitológicos e animais híbridos com o homem...

O desenho mostra o que alguns denominaram depois como a “Arma do Monge”, um pequeno canhão em forma de pêra ou vaso com quase um metro de comprimento, apoiado numa mesa sem fixação aparente (e o recuo?), disparando uma seta. O soldado que o maneja, usa um pedaço de ferro em brasa para inflamar a carga de pólvora (ou substância análoga).

Registros escritos de armas existem recuando mais no tempo, em datas como em 1281, o gentil-homem francês Giovanni D’ Appia (Reitor do Papa Martinho IV, enviado para sufocar o governo antipapal constituído pelos Gibelinos em Forli e Cesena), foi testemunha da incrível presença de “fusiliers ou schioppettieri” entre os soldados do famoso conde Guido de Montefeltro (de Urbino, Itália). Na mesma campanha na defesa de Forlì, Itália, durante o cerco que durou de 1281 a 1283 foram usados canhões apelidados de “os jarros de Forli”, certamente devido talvez ao seu formato de “pêra ou vaso”, que nos remetem de imediato a visualização da arma do manuscrito de Milemete. Este tipo de arma seria chamado pelos italianos pelo seu formato peculiar de “vasi”, e pelos franceses de pot-de-fer. Neste mesmo período (1326) o poderoso Conselho de Florença ditava as suas rígidas regras ao que parece, para a manufatura de canhões e balas de metal (“pilas seu pallectas ferreas et canones de metallo”). Em 1327 o mesmo Edward III usou canhões contra os Escoceses, e na Guerra dos 100 anos na batalha de Crécy em 26 de agosto de 1346, os ingleses teriam usado três canhões contra os franceses. Outra figura de um pequeno canhão aparece no manuscrito “Belli Fortis”, da autoria de Konrad Kyeser, escrito ao redor de 1400.

No tocante a armas que disparavam dardos ou setas como a mostrada na ilustração de Milemete, um manuscrito de 1338 (conservado na Biblioteca Nacional De Paris), cita que na cidade francesa de Rouen usaram-se "pots de fer à traire garros de feu" ou seja " panelas ou potes de ferro para atirar setas de fogo. Corroborando isso outros registros também falam de setas de madeira providas com penas de metal. São citadas no inventário real (English Privy Wardrobe) da Torre de Londres no ano de 1377, centenas de grandes setas metálicas com empenagem (cauda), provavelmente de estanho, ao lado de 22 canhões (e numa lista posterior arcabuzes ou mosquetes) que disparavam o mesmo tipo de projétil, os mesmos inventários da Torre de Londres citam ainda quatro" "moldes vocate formule pro pelletis infudendis", ou moldes para fundir as “balas” (vocábulo popular para projétil e derivado do verbo grego ballo – atirar, lançar, arremessar) como também 1348 libras de " Plumbi em pellottis" ou - 612kg de chumbo em pelotas. No inventário real de 1388 estão registrados 3 “parvos vocatos” (armas ou canhões de mão).

Uma arma bem semelhante à de Milemete seria a bombarda de Loshult, na Suécia (foto abaixo), datada como por volta de 1350, uma pequena miniatura de canhão de 30cm de comprimento em formato de vaso como o da iluminura.
Daí em diante aparecem os “handgonnes”, algo como “arma de mão”; no inglês arcaico Gonne = gun, arma. (que vem da palavra arcaica engyn, ou máquina), No idioma alemão tais armas primitivas eram chamadas “Faustbüchsen”, “Faustrohr”, “hakenbüsche” (literalmente “arma com gancho”, tendo esta denominação se popularizado e criado o posterior termo Arcabuz para armas mais modernas), "Büchss“ e “Büss”, sendo estes dois últimos termos incrivelmente relacionados com a caixa de esmolas de madeira das igrejas!! Palavra provavelmente derivada do latim medieval Buxis (“caixa", que geralmente era feita com madeira de Buxo). Alguns dizem que pelo formato quadrado das coronhas de então, que teria alguma semelhança com a caixa de óbolos. Em dinamarquês medieval tais armas eram conhecidas por "Bösse".

A evolução natural levou as armas portáteis a mudar a forma de um pequeno vaso, óbvia redução em escala de uma bombarda maior, para tubos metálicos cilíndricos ou com facetas, alongados ou curtos, alguns equipados com ganchos (que deveriam ser apoiados nas muralhas e frestas dos muros dos castelos), e inseridos na ponta de um cabo de lança pra fazer fogo (e assim são vistos em vários desenhos e tapeçarias medievais), ou amarrados com tiras de couro ou metal a pedaços de madeira à guisa de primitiva coronha. Nesta conformação de arma com gancho, se apresenta o curioso hackenbüsche conhecido como “arma de Morko” da Suécia, com sua face humana barbuda e suas inscrições de motivos religiosos, e o de Vedelspang, em Schleswig, ou o cilindro curto achado no castelo de Tannenberg, ambos da Alemanha.


Tempos depois seriam incorporadas aos arcabuzes as verdadeiras coronhas de madeira envolvendo o cano a e culatra (inspiradas a princípio nos modelos usados nas bestas e balestras), as massas de mira, e em seguida a revolucionária chave de mecha ou serpentina (o “matchlock”), que substitui com vantagens táticas e técnicas o infame uso do ferro em brasa ou um segundo operador portando um pedaço de madeira ardente para incendiar a teimosa carga de pólvora negra. Sobre este mecanismo, suspeita-se que foi concebido em Liége-Bélgica por volta de 1375, (embora o códice Vindobana, um manuscrito da cidade de Viena do início do Séc. XV, já ilustrava uma arma equipada com uma grande serpentina em forma de “Z”).


Com a evolução da primitiva metalurgia e os novos experimentos de pólvoras mais estáveis e melhores desenhos de câmaras de disparo, puderam finalmente as armas de fogo perfurar as armaduras (sendo estas reforçadas ao máximo, ao limite de maneabilidade do conjunto homem/cavalo). Os canhões destruiriam as paredes dos castelos, terminando por tornar seus muros inúteis. O arco, a balestra, a catapulta, foram paulatinamente sendo substituídos, e as armas de fogo envoltas no fumo da pólvora caminhariam então para a sua longa história, como companheiras de desdita do homem na sua saga pela terra, chegando à soberba sofisticação e precisão das armas dos dias atuais, que incluem até o titânio, cerâmica e polímeros em sua construção, coisa que Walter de Milemete jamais imaginaria quando desenhou para a posteridade a visão da experiência de um disparo de um tosco canhão apoiado numa frágil mesa...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Oplologia e colecionismo.


Vista parcial de uma das vitrines do maravilhoso Museu de Armas de La Nación em Buenos Aires, exemplo soberbo de conservação do patrimônio e cultura de um povo.


Numa roda de amigos num quente final de tarde, no chamado “happy hour” regado a cerveja, é mais do que comum as conversas girarem sobre as atividades do dia, o trabalho, o jogo de futebol, a política, as notícias sobre a situação do país e do mundo. E no meio a tudo isso, sempre se encontra um tempo para as paixões em comum, a maioria das pessoas encontra no esporte a sua válvula de escape das tensões diárias, mas um pequeno grupo tem lá as suas paixões mais específicas. O homem tem certamente um “instinto acumulador”, as pessoas guardam de tudo, de tesouros a velharias e inutilidades, e em certos casos patológicos até... Lixo. Nesta mesma roda de amigos, poderemos encontrar talvez um colecionador de carros, um filatelista (colecionador de selos) um numismático (colecionador de moedas) e quem sabe até um oplólogo... Oplólogo? Que raios vem a ser isso?
Oplologia é um neologismo de origem inglesa e italiana, foi cunhado na Inglaterra no século XIX por Sir Richard Burton e deriva dos vocábulos gregos Hoplon - οπλον, e λογοσ – o logos, como conhecimento, ciência. “Hoplon” era o grande escudo levado pelos Hoplitas (ὁπλίτης), o soldado grego de infantaria pesadamente armado, servindo a mesma raiz para designar o conjunto completo das armas dos gregos (além da armadura, grevas, escudo e elmo, usavam a espada de fio duplo, e lança pesada). Ainda relacionado há o termo grego Hoplos, que designa um ser mítico que era couraçado.
A Oplologia no início foi relacionada com a arte e técnica marcial, ao uso das armas, e depois de 1960 com Donald Frederick Draeger, passa a ser a relacionada como campo acadêmico de maior abrangência social, podendo se definir como a ciência que estuda a arte do combate e da guerra, da Filosofia e do logos do guerreiro, da história e estratégia militar, incluindo-se aí certamente o estudo da artilharia, das armas de fogo, das armas brancas, da munição, das fortificações, e também servindo de auxílio para outras ciências sociais. Na Itália, a palavra oplologia foi usada também a partir do século XX para descrever o estudo das armas e armaduras, e não propriamente só da parte prática, a das técnicas de uso.
Oplólogo então é o pesquisador ou estudioso do tema, que deve ter o necessário rigor científico, com pesquisa e literatura, mas sem esquecer a paixão (oplofilia) que estes artefatos sempre provocaram nos seres humanos (ou ainda no outro extremo ódio e medo, tão atuais e debatidos – a oplofobia,).
O estudo, conservação e colecionismo das armas de fogo, muito nos revelam sobre a cultura e a tecnologia da época em que elas foram feitas. As análises profundas das características técnicas e sociais nos fazem vislumbrá-las além de simples instrumentos mecânicos, pois foram parte da sociedade, as mantenedoras de poder e status social de seus proprietários. Pode-se inclusive se dizer que a função social das armas era ser representante visual da opulência ou penúria de seus possuidores, assim, por exemplo, frente a uma pistola com fecho de roda ricamente decorada do séc. XVI saberemos logo que pertencia a um nobre alemão, pelo alto valor econômico e artístico ali empregado, ao passo que frente a um mosquete de mecha rústico e simples do mesmo período e região, saberemos logo que era pertencente a um lasquenete (mercenário) ou soldado regular, pela modesta e prática construção.
As armas de fogo e canhões representam mais de 700 anos da inventividade e engenhosidade humana. Em cada arma como já disse, estão inseridos dados da sua época histórica, da cultura do povo que a construiu, cinzelados e burilados em metal bruto, ouro e prata, estão entranhados a sensibilidade e a habilidade particular de cada artesão, o que em certos casos pode transformar cada peça em uma peça única e de valor inestimável. Não se podem dissociar as armas da história, dos personagens das grandes tragédias, dos dramas humanos e dos importantes fatos mundiais. As armas fizeram sua aparição na sombria idade média como criaturas mitológicas, verdadeiros dragões que vomitavam fogo e metal, surgidas nos caldeirões dos alquimistas, e paridas pela mistura malcheirosa da primeira pólvora se esgueiraram para o campo de batalha medieval, através dos primitivos canhões de mão que evoluíram acompanhando a marcha constante do progresso humano, e se infiltraram no inconsciente coletivo com a mesma força de seus projéteis, que silvando perfuravam armaduras e destronavam reis.
Assim se consolida a oplologia como ciência social para somar a outras já existentes, conjugada com a balística em suas diversas vertentes (balística interior, exterior, de efeitos e forense), que cuida do estudo dos projéteis, tendo esta nascido junto com as antigas balistas e catapultas da idade antiga, antes mesmo das armas de fogo.
O colecionismo de armas tem por objetivo a perpetuação da memória e da história do homem, vem somar possibilidades a criação de um mosaico completo das diversas facetas técnicas e sociais de um período, possibilitadas pela metalurgia, artes, ourivesaria, engenharia, marcenaria, marchetaria, arqueologia, sociologia, literatura e demais ciências e técnicas.
Colecionar armas é sinônimo de cultura, conservação do patrimônio, e responsabilidade, bem ao contrário do que hoje se prega no Brasil, que seria sinônimo de ignorância e violência. O colecionador antes de tudo é um técnico, um estudioso, um literato apaixonado pelo que faz, e não raras vezes, um lutador solitário que se impôs a responsabilidade de preservar a memória militar e social de seu país, mesmo na contramão de seu povo ou momento político, que apenas anseiam pelo esquecimento ou pela ignorância plena.