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domingo, 13 de setembro de 2009

Fábricas antigas do Brasil : Castelo

Prezados leitores, estou transformando o blog em livro, necessito de fotos de revólveres da Castelo para estudo de modelos. Agradeço a colaboração e atenção de todos...


A Indústria de Armas Castelo A.S. é uma das ma
is antigas fábricas de armas do Brasil, fundada em 1929 em São Paulo, no bairro do Belém, funcionou ainda em Ferraz de Vasconcelos, e depois na Mooca na Rua Tobias Barreto. Fabricou também material hidráulico.

A razão social de Lizarriturri & Cia. não deixa
dúvidas: a origem dos fabricantes era o país Basco da Espanha, sendo os proprietários da firma José María Lizarriturri (eibarrês que segundo consta nos poucos registros, chegou ao Brasil em 1928,ao que parece com a intenção inicial de montar uma fábrica de serras que receberia o nome de Arrate – nome de um monte situado na cidade de Eibar), e Dora Lúcia Alberdi. Mergulhei numa busca incessante para descobrir seus nomes, pois não se tem nenhuma informação sobre sua fundação, e a literatura nacional apenas e unicamente cita, quando cita, a razão social da fábrica, (sendo muito provavelmente o "Vitrine da Armaria" o primeiro a veicular tal dado). Isso nos dá muito orgulho, pois é o resgate de uma parte de nossa história oplológica.

A Castelo tinha
como logomarca o desenho de uma torre de Castelo dentro do mapa do Brasil.
A marca do Castelo bem visível tanto na caixa de mecanismo como nas talas de empunhadura

A Castelo começou a sua fabricação de armas em
meados de 1940, com garruchas de dois canos nos calibres 22 LR, 320 e 380 de pólvora negra. Os modelos iniciais não eram muito diferentes das garruchas belgas e espanholas tão populares aqui até a década de 50, com a abertura por um botão embaixo dos canos. Mas aos poucos num segundo modelo, o design da empunhadura mudou, assumindo uma feição quadrada, esteticamente discutível, e a chave de abertura passou a ser uma alavanca na lateral.


Garrucha 320 da Castelo, 1º modelo

Garrucha 320 da Castelo, 1º modelo (sub-tipo com variação na chave de abertura)

Garrucha Castelo do 2º Modelo, cal. 22


Depois vieram os revólveres, inicialmente com um modelo do tipo de “quebrar ao meio” (“top brake”), o que causa certa estranheza, pois este design há muito já estava fora de moda, sendo bem obsoleto para a época, lembrariam vagamente na aparência alguns dos antigos (mas excelentes) modelos da Webley-Scott. O acabamento era tosco e os calibres eram o .22 LR (para 8 tiros) e .32 SW (6 tiros).

revólver Castelo tipo "Top-Break"

Um segundo modelo de revólver mais moderno apareceu na década de 1960, tinha o tambor basculando para a lateral esquerda e um desenho bem próprio, que fugia da linha geral da silhueta dos Smith & Wesson M&P adotados pela maioria dos fábricas. Os calibres deste último eram .22 LR e 32 S&W Long, com canos variando de 2 a 4 pol. Os sistemas de abertura, trancamento do tambor, e ejeção dos cartuchos vazios eram originais também. O acabamento e a qualidade deste tipo ficava provavelmente abaixo das armas da Caramuru e INA, mas mesmo assim eram armas confiáveis. Todos os revólveres Castelo eram de ação mista (dupla e simples).


Belo exemplar de revólver castelo de 2º modelo, cal. 22 LR cano de 4”

Na década de 1960 a Castelo produziu também uma pistola de pressão cal. 4,5mm.
A Castelo, como muitas outras, fechou na época dos governos militares (por volta de 1970), devido a pouca competitividade, vendas reduzidas e às muitas restrições, com o projeto de uma pistola semi-automática e de um revólver calibre 38 SPL ainda na prancheta.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Balística Interna: Operação em Armas Semi e Automáticas

Desde o surgimento das desajeitadas armas primitivas (os Hand cannons e Handgonnes), o maior problema para os projetistas de armamento sempre foi como obter a rápida repetição dos disparos. A antecarga era um processo lento e difícil, eventualmente quando numa caçada a aves, ou a caça pequena isso não seria um grande problema, mas com caça pesada avançando em direção do caçador a galope, ou em meio a uma batalha recebendo fogo inimigo isso deveria ser assustador.

O surgimento dos sistemas de retrocarga, com a introdução do primeiro e rústico antepassado do cartucho metálico, depois de inúmeros ensaios e sistemas frustrados, negas e certamente culatras explodidas, foi conseguido por Pauly em Paris no ano de 1812. A evolução natural com as modificações posteriores realizadas por Houiller, Lefaucheux (pai e filho), Flobert, dentre outros, viabilizou tempos depois a repetição rápida dos disparos e por fim o automatismo.

As primeiras experiências com armas de repetição semi-automáticas foram levadas a cargo pelo americano Hiran Maxim, que iniciou seus estudos modificando várias carabinas Winchester 1866 cal. .44 Henry (fraco para esta função) para disparo semi-automático, sendo que há quem diga que os Turcos teriam incorporado a algumas de suas unidades tal modificação em suas carabinas, utilizando-as na batalha de Plevna. Porém, o escopo de Maxim era o armamento militar pesado, tendo sido o criador da 1ª metralhadora automática.

A transferência dos sistemas de repetição manual para o automatismo ocasionou novos problemas na administração do recuo e no aproveitamento dos gases do disparo para a correta ciclagem do mecanismo (carga, disparo, extração, ejeção, recarga). Projetistas como Browning, Maxim, Krnka, Mannlicher, Roth, Petter, Schwarzloze, e inúmeros outros, criaram uma série de sistemas operacionais voltados e dimensionados as características das armas por eles criadas e quase sempre tendo em vista a potência dos cartuchos por elas empregadas.

Vamos de maneira resumida enumerá-los:

  1. AÇÃO DE RECUO DIRETO SIMPLES (Ou Fecho Por Inércia - “Blowback“). Ação do Tipo Desaferrolhada.

    De maneira simplista poderíamos dizer que este sistema usa a força dos gases da queima da pólvora de maneira direta contra a face do ferrolho para obter o seu recuo e funcionamento do mecanismo. Não há nenhum fecho mecânico propriamente dito que atrase a abertura do ferrolho a não ser o peso fornecido pela própria massa, a fricção do ferrolho, e a força oposta pelas molas recuperadora e do cão. Todos estes elementos em conjunto, se opõem e resistem à força do recuo e a estupenda pressão gerada pelo disparo, atrasando a abertura do ferrolho para a extração e ejeção da cápsula, até que a pressão do gás caía a níveis seguros, ou seja, quando o projétil abandona a boca do cano. Caso contrário, o recuo (vulgo “coice”) seria bastante severo e haveria problemas de rompimento de estojos e escape de gases incandescentes em direção ao rosto do atirador.

    Este sistema é o preferido para armas de baixa potência e pequeno calibre como as .22 LR, e 6,35 mm Browning, embora seu teto teórico de operação seja comumente o 9 mm Curto (380 ACP) e o seu equivalente soviético o 9 mm Makarov. Calibres mais fortes obrigariam a arma a ter um ferrolho com bastante massa (peso) e molas duríssimas, como ocorre nas Astra série 400, e pistola Jo-Lo-Ar, ambas armas espanholas no potente cal. 9mm Largo.

    Curiosamente este é o sistema operacional mais usado em submetralhadoras, mesmo usando calibres bem mais potentes como eram vários tipos de 9 mm mais antigos (sendo atualmente usado apenas o 9 mm Luger) ou o .45 ACP, a preferência para este sistema de operação é devido a simplicidade do desenho, e para armas deste tipo geralmente se usa a uma mola de recuperação bastante forte com um ferrolho relativamente pesado operando aberto Como nas MP-18, MP-28, MP-34, MP-40, Carl Gustav, Sten, Uzi, MAC-10, INA, e em dezenas de outros modelos.

  2. AÇÃO DE RECUO DIRETO SIMPLES RETARDADO (Inércia Retardada - “Delayed Blowback“). Ação do Tipo Desaferrolhada.

    A operação de inércia retardada também não é aferrolhada. Basicamente é um Blowback com a diferença de que o atraso da abertura da culatra é conseguido além do peso do ferrolho e molas, pela fricção entre peças mecânicas, massas de bloqueio, ou giro do cano sobre seu eixo através de guias ou canais helicoidais, que efetivamente exercem resistência contra o movimento inicial do ferrolho e contra as forças do recuo. Armas típicas deste sistema são a metralhadora Schwarzlose (com ressaltos no ferrolho que obrigavam o giro), a pistola Savage de 1915, onde o cano girava sobre seu próprio eixo, a famosa submetralhadora Thompson 1928 e seu sistema Blish de retardo através de fricção, e a pistola HK P9 com um sistema semi-rígido de trancamento por roletes na cabeça do ferrolho que se encaixam em depressões na armação retardando a abertura. Este sistema, aliás, é derivado do usado no fuzil automático Mauser Sturmgewehr 45, desenvolvido pela equipe do engenheiro alemão Dr. Ludwig Vorgrimmler na segunda guerra, que por sua vez se baseou no trancamento da metralhadora MG-42 [Este sistema ao que parece foi patenteado na Polônia por Edward Stecke em 1930] , foi reaproveitado nos fuzis CETME espanhóis, e posteriormente nos HK G-3 e demais, e na submetralhadora HK MP-5. Esta última com a vantagem maior para a precisão, de atirar com um ferrolho fechado.

  3. AÇÃO DE RECUO DIRETO SIMPLES RETARDADO A GÁS (“Gas-Delayed Blowback Ou Gas-Retarded Blowback“). Ação do Tipo Desaferrolhada.

    Como no sistema de recuo direto (Blowback) o recuo simples direto a gás retardado, opera pelo princípio do ferrolho aberto, sendo a abertura da culatra atrasada por uma parte dos gases (não confundir com o sistema gas operated) que são desviados por um orifício no cano para dentro de um cilindro com um pistão que exerce resistência ao sentido original do recuo.

    Pouco utilizado ainda, tem nas pistolas HK P7 e na Steyr GB, seus maiores expoentes.

  4. AÇÃO DE GASES DE AVANÇO (“blow forward”). Ação do Tipo Desaferrolhada.

    Ação com longo movimento de cano, geralmente desaferrolhada. Neste interessante e obsoleto sistema o ferrolho é fixo a armação, e o cano é que se move para frente durante o recuo!!! No seu movimento e deslocamento ocorre a extração e recarga dos cartuchos. Como expoente maior deste sistema cito a pistola projetada por Schwarzloze em 1908, que não possuindo nenhum sistema de atraso, sendo apenas do modesto calibre 7,65 Browning (.32 ACP) possuía um recuo brutal.

  5. AÇÃO DE RECUO DIRETO TOTAL CURTO (“Short Recoil“). Ação do Tipo Aferrolhada.

    A partir desta ação falaremos dos tipos aferrolhados ou seja com trancamento de culatra (“locked-breech”). Onde em geral o cano se prende mecanicamente ao ferrolho durante o percurso do recuo provocado pelo disparo.

    No recuo curto geralmente o conjunto ferrolho/cano recua solidário por um percurso menor que o comprimento total do estojo da munição que a arma dispara. De um certo ponto em diante o cano deixa de recuar sendo retido em seu percurso mecanicamente por uma peça qualquer, e o ferrolho continua seu deslocamento extraindo, ejetando o cartucho vazio e recolocando outro proveniente do carregador ou magazine. Este movimento de recuo pode ser linear como nas Luger, P-38, Beretta 92, ou ainda vertical trabalhando em um eixo basculante de uma biela (Colt 1911) ou plano inclinado (FN 35, MAS 35). Na Steyr 1911 o cano recua cerca de 33 mm, e ainda gira sobre seu eixo.

    As diferenças entre os diversos designs de sistema condicionam a velocidade de desaceleração do conjunto cano/ferrolho e seu destrancamento.

    É um tipo de ação usado em armas de grande potência, inclusive nas metralhadoras Browning cals. .30 e .50 (7.62 e 12.7mm) onde nestas, depois de desaferrolhar, existe um acelerador de inércia para o retorno do ferrolho.

  6. AÇÃO DE RECUO LONGO (“Long Recoil”). Ação do Tipo Aferrolhada

    Como no sistema de operação de recuo direto de gases com recuo curto do cano, no recuo longo o ferrolho também recua solidário, porém por uma distancia maior que o comprimento do cartucho disparado, recuando travado com o ferrolho até a parte final do percurso.

    Armas com este sistema geralmente têm molas recuperadoras distintas e independentes para o ferrolho e cano. Estes sistemas tendem também a ter um tempo de ciclo mais longo, mais lento, pois ao final do curso do recuo o cano volta pela ação da mola a sua posição original, extraindo e ejetando assim a cápsula vazia, ficando o ferrolho temporariamente retido por um trinco, quando finalmente retorna a sua posição recarregando a arma.

    Este sistema se acha mais em peças de artilharia, sendo pouco utilizado em armas leves. Exemplares típicos são a espingarda semi-automática Browning, e as pistolas Frommer 1912 e Mars, e a metralhadora Madsen.

  7. RECUO INDIRETO DE GAS (“Gas Operation“). Ação do Tipo Aferrolhada

  8. O recuo indireto de gás tornou-se popular em ações de uso militar depois da segunda guerra. Uma parte da coluna de gás que acompanha o projétil durante seu deslocamento pelo interior do cano é desviada por um orifício e conduzida para um conduto ou canal, onde movimenta um pistão ou êmbolo, ligado ao ferrolho por uma haste, transferindo assim a energia do movimento ao porta-ferrolho movimentando o mecanismo.

    Um detalhe importante no desenho da admissão de gás no cano, é que o evento desta deve ser bastante distante da culatra, para assim permitir que a pressão caia a níveis seguros antes da culatra começa a abrir.

    A maioria dos desenhos atuais usa sistemas de trancamento por ferrolho rotativo, onde a cabeça do ferrolho efetua um giro, trancando-se em ressaltos escavados na armação, até começar seu movimento inverso para destrancar a culatra.

    É a ação preferencial dos modernos fuzis de assalto, como o M-16, AK -47, Galil, Valmet. e metralhadoras como M60 e M249.

  9. OPERAÇÃO POR INÉRCIA (“Inertia Operation”). Ação do Tipo Aferrolhada.

    É um sistema no mínimo curioso. Usando como base da ação a operação a gás, usa a inércia provocada pelo disparo e a massa da arma de uma certa forma como componente do mecanismo. Particularmente hoje utilizado em espingardas da Benelli (sistema Inertia Driven®) e Franchi. Na Benelli, o ferrolho se divide em duas partes unidas por uma mola bastante dura (corpo do ferrolho, mola de inércia e cabeça de ferrolho rotativa), e cano fixo a armação. No momento do disparo uma parte do ferrolho permanece inerte, enquanto que o recuo da arma fecha as duas partes do ferrolho, transferindo energia e comprimindo a mola intermediária entre a cabeça e o corpo do ferrolho, sendo que a energia e a compressão da mola auto-regula a ação. O corpo de ferrolho destranca a cabeça rotativa que recuando, extrai e ejeta o cartucho vazio, arma o martelo e comprime a mola de retorno, que se estendendo empurra o ferrolho de volta a câmara, retirando um cartucho do magazine iniciando um novo ciclo.

    Esta ação é incrivelmente rápida, vangloriando-se a Benelli de ter atualmente uma das mais rápidas espingardas semi-automáticas do mundo. Sendo memorável a impressionante foto em um de seus catálogos, onde quando o ultimo cartucho é ejetado, o estojo vazio do primeiro disparado nem tocou o solo ainda...

    É aconselhável o uso de munição do tipo Magnum, embora o uso de outros tipos não seja proibido, deve se observar o recuo mínimo para comprimir a mola e ciclar corretamente o sistema, sendo interessante que se a massa da arma não recuar, como quando a arma está apoiada contra o solo, não recuará para operar o mecanismo com segurança.


quarta-feira, 3 de junho de 2009

O desconhecido e "perigoso" calibre 9mm Kurz


O calibre .380 ACP (Automatic Colt Pistol) já é antigo conhecido de todos aqui no Brasil (ou ao menos deveria ser), pois seu uso para civis foi liberado no final de década de 1980. Este cartucho foi desenvolvido pelo famoso projetista John Moses Browning, tendo feito seu “debut” no mercado americano com a pistola Colt mod. Pocket Auto de 1908 (que derivava da Colt Mod. 1903 em calibre 7,65 mm, outra munição popular de Browning), e na Europa foi lançado com a belga FN Mod. 1910, no ano de 1912.

Foi introduzido como munição específica para pistolas de defesa (de pequeno tamanho, em ação blowback), sendo que, em tese, este cartucho e o 9mm Makarov são os maiores cartuchos para uso nestes mecanismos desaferrolhados – qualquer dúvida sobre isso ver o artigo Balística Interna: Operação em Armas Semi e Automáticas. É um cartucho popular, de baixa pressão, com projétil com diâmetro de 9,04 mm e estojo tipo rimless, de paredes retas, com comprimento total de 17,27mm. Dispara projéteis geralmente ogivais com massa que varia de 5,8 g a 6,1 g (entre 85 e 95 grains), com uma velocidade média de saída na boca do cano de 290 m/s.

O 380 ACP é considerado como sendo o calibre mínimo para uso em defesa pessoal, inferior em potência ao .38 Special com cargas + P, ou até mesmo em algumas configurações padrão. Apesar de ser menos potente para a função, chegou a ser usado como cartucho militar oficial de vários exércitos (dentre os mais importantes, a Itália, a Suécia, e a Tchecoslováquia) foi também cartucho oficial de várias polícias européias. Foi, e ainda é, usado em armas de marcas famosas como Astra, Beretta, Bergmann, Browning, Colt, CZ, FN, Frommer, Lhama, Remington, Savage, Star, Taurus, Walther, e até mesmo em algumas submetralhadoras como as Ingram MAC-11 e a CZ Skorpion.

Mas se o .380 é um calibre sobejamente conhecido, constando seus dados em inúmeros livros e páginas da web especializados em munição, escrever sobre ele não seria chover no molhado? E, afinal, o que tem a ver o 9 mm Curto (ele é chamado assim para diferenciá-lo de outro calibre desenhado por J. M. Browning em 1903, o 9 mm Browning Long), com este Calibre 9 mm Kurz? Bem, apenas porque (como certamente a maioria deve saber) O .380 ACP é o mesmo 9mm Kurz (kurz significa ''curto'', em alemão). Acontece que como outros calibres, o .380 teve e tem várias denominações, a depender da língua do país usuário, e das características comerciais do momento. São eles: .38 Colt Auto Hammerless (mas não confundir com o .38 ACP, que é outro cartucho, mais longo), 380 C.A.P.H. , .380 Browning Short, .380 Auto, .380 ACP (Automatic Colt Pistol), .380 Auto Webley, 9 x 17 mm, 9 Beretta m. 1934, 9 mm Browning, 9 mm Browning Short, 9 Browning kurz, 9mm Court (em francês), 9 mm Corto (em italiano), 9 Holland P.S. nº21, 9 mm Kratak (em iugoslavo), 9 mm Kurz, 9mm Scurt (em romeno), 9 pistolen-patrone 400 (h), 9mm selbstlade – pistole, 9 mm Short, DWM 540, GR 929, SAA 4865.

Sim, todos estes são nomes do nosso amigo .380 ACP expressos tanto em centésimos ou milésimos de polegadas (sistema americano e inglês), ou diretamente em milímetros no sistema métrico europeu continental, usados em diferentes épocas. Mas, e daí? Daí que, na verdade, o que motivou este texto foram notícias que infelizmente o desconhecimento técnico de algumas autoridades policiais Brasil afora, em vários, repetidos e lamentáveis episódios têm levado ao cárcere pessoas detidas em flagrante pela “posse ou porte ilegal” de armas timbradas como sendo do perigoso e desconhecido calibre 9mm Kurz. Agem então os agentes da lei como se este calibre estivesse inserido no Capítulo III, Art. 16. do R-105, entre as armas de uso restrito, talvez por simples desconhecimento de certas facetas da oplologia, terminologia de cartuchame, e balística forense.

Geralmente as armas que mais se encontram marcadas como 9mm Kurz em nosso país são as da marca Walther, nos modelos PP, PPK, e PPKS. Em muitos dos casos dessas apreensões, algumas destas armas estavam registradas legalmente, o que piora o absurdo legal. Por outro lado, há casos de outras armas alemãs marcadas como 9mm Kurz, mais antigas e mais raras, que nem por isso são impossíveis de se encontrar nestas paragens. Calibre ilegal não é, pois foi liberado pela Portaria n° 1237, de 01 de dezembro de 1987, e bastaria que as autoridades policiais, ou seus prepostos, lessem a lei com mais cuidado (pois a antiga portaria já cita esta denominação), que tal dúvida sobre a legalidade do 9mm Kurz seria sanada imediatamente:


PORTARIA MINISTERIAL Nº 1237

Exclui pistolas semi-automáticas calibre 9mm curto e respectivas munições da classificação de uso proibido e as inclui na classificação de uso permitido.

O ministro de estado do exército, de acordo com o disposto nos art. 21 e 159 do regulamento para a fiscalização de produtos controlados (R105), aprovado pelo decreto n° 55.649, de 28 de janeiro de 1965, e com o que propõe o departamento de material bélico, resolve:

1. excluir as pistolas semi-automáticas calibre 9mm curto (9mm "kurz", "corto", "short" ou .380 auto) e respectivas munições da classificação de uso proibido constante do art. 161 do R-105.

2. incluir o citado material na classificação de uso permitido, constante do art. 162 R-105.

Leônidas Pires Gonçalves, Ministro do Exército.

Esta antiga lei foi englobada no R-105 reformulado de 20 de novembro de 2000, no Capítulo III, Art. 17. na parte sobre armas de uso permitido:

I - armas de fogo curtas, de repetição ou semi-automáticas, cuja munição comum tenha, na saída do cano, energia de até trezentas libras-pé ou quatrocentos e sete Joules e suas munições, como por exemplo, os calibres .22 LR, .25 Auto, .32 Auto, .32 S&W, .38 SPL e .380 Auto.

Às vezes até a simples posse de cartuchos (geralmente alemães) timbrados como 9 mm K (sendo o “K “ a abreviatura de Kurz, logo 9 mm curto), é o suficiente para a prisão, pois o desconhecimento técnico obriga a seguinte dedução: “se é um “9mm K” não pode ser o nosso anêmico .380...”

Então que fique bem claro que o 380 ACP é o mesmo 9 mm Kurz timbrado nas pistolas e cartuchos alemães, que tantas vitimas de coação ilegal fez entre civis, e que ofuscou carreiras de delegados e promotores por prisões equivocadas (no tocante apenas a ser classificado como calibre de uso “restrito”, fique isso bem claro...), por um mero detalhe técnico de classificação da nomenclatura, mas não de somenos importância no esclarecimento da verdade num laudo pericial, ou num processo penal. Este artigo não trata de criticar o trabalho dos nossos abnegados policiais, sempre tão relegados a segundo plano, operando em condições difíceis, ou ao de qualquer agente público, tem sim, como único escopo, auxiliar e prestar um esclarecimento eminentemente técnico, um auxilio ao verdadeiro trabalho policial ou judiciário abalizado na técnica e na lei.

Espero sincera e modestamente ter acrescentando algo à este polêmico assunto.