Mostrando postagens com marcador armas obsoletas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador armas obsoletas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O REVÓLVER WEBLEY MOD. BOXER


Continuando com a nossa série (acidental) sobre armas e guerras coloniais inglesas, iniciada com os projéteis “Dum Dum”, falaremos sobre o revólver Webley & Scott mod. Boxer em calibre 577.
Pode-se mesmo dizer que os ingleses foram os precursores das teorias de “stopping power” e “one shot stop” (respectivamente “poder de parada” e “parada com um só tiro”, tão em moda nas discussões atuais sobre balística terminal entre os partidários do Dr. Martin Fackler e os partidários das hoje famigeradas ta
belas de Evan Marshall).
A teoria de um cartucho de grande calibre que tivesse características de ser um legítimo “manstopper” (literalmente “parador de homens”), sempre rondou a mente dos projetistas ingleses. Certamente isso era um fruto amargo das experiências nas colônias britânicas da Ásia e África, onde os militares enfrentavam nativos patriotas obstinados e fanáticos
(que muitas vezes aumentavam a sua resistência física a dor com substâncias alucinógenas). Todo este processo resultava em impactos que não derrubavam imediatamente o adversário, antes que este acabasse com a fleuma do oficial inglês que teimava em descarregar seu revólver contra ele.
Sem dúvida tais
razões nortearam o desenvolvimento destes projéteis, e mesmo outros para armas longas (vide artigo neste blogue sobre a munição “dum dum”).
Como as espadas e os revólveres da época, eram armas de porte apenas dos graduados e do oficialato, os soldados rasos ingleses devem ter passado por maus bocados em mais de um episódio, pois o fuzil regulamentar inglês P-53 (como t
odos da época de pederneira ou percussão), era de antecarga com capacidade de apenas um disparo. Devia ser desesperador ficar com a arma descarregada frente a ondas enormes de adversários determinados e corpulentos, armados com espadas curvas e outras armas brancas exóticas, tendo como arma reserva apenas uma baioneta. Aliás, mesmo os posteriores e mais modernos fuzis Martini-Henry de cartucho metálico, com ação falling block, falharam em proteger os 1300 ingleses mortos no famoso massacre de Isandlwana, em Zululand, África do Sul, em 1879 (1.800 ingleses contra pelo menos 20.000 guerreiros da etnia Zulu).
A experiência inglesa em combates corpo a corpo, mostrou que
armas de pequeno calibre e maior velocidade, como as decepcionantes Colt Navy “made in London”, em cal. 36, compradas de maneira particular por muitos oficiais britânicos e usadas alguns anos antes em outras ocasiões; e ao que parece até mesmo os revólveres Adams/ Tranter em calibre .44 e .45 de percussão se mostraram fracos para os adversários coloniais dos ingleses.
O revólver que responderia a esses anseios como eficaz arma de defesa em combates a curta distância aparece em 1868, fabricado também pela famosa casa Webley com o nome de Webley Nº 1 ou mod. “Boxer”.

Sua história começa com a introdução da conversão Snider de cartucho metálico para os fuzis de antecarga Enfield P53 e outros (ver “balas, sebo e uma guerra...” neste blog). A ordenança acatou a sugestão de se adotar um revólver que calçasse munição com o mesmo diâmetro do fuzil (.577). Embora muitos atribuam a Webley o desenho que foi escolhido, sendo até hoje o modelo conhecido como Webley .577 Boxer Revolver, este na verdade pertencia a famosa firma de William Tranter sediada em Birmingham (curiosamente há um livro que diz que o desenho pertencia a John Adams, projetista de renome e um dos donos da tradicional fábrica inglesa Adams de armas curtas. Seria um destes imbróglios de patentes do fim do séc. XIX?).
Foram produzidos por Webley sob licença alguns exemplares, e além da Webley este modelo também foi fabricado pelo próprio Tranter e pela firma Braendlin. Os exemplares de 5 tiros feitos pela Tranter seguiam uma numeração de série geral, os de 6 tiros da Braendlin tinham númeração de série própria. Alguns afirmam que Braendlin fez tanto as versões de 5 tiros como as de 6 tiros (com canos de 4 polegadas). Estas armas são reconhecíveis pelo timbre Tranter Patent/ Braendlin Improvement, referente às modificações introduzidas por Braendlin no antigo desenho do tambor dos Tranter – que era derivado dos antigos tambores convertidos de percussão - com a substituição dos pinos percussores independentes para cada câmara, por um único pino de disparo montado no cão. A firma Tipping & Lawden de Birmingham ao que parece produziu exemplares do .577 bem semelhantes aos Webleys, também sob licença de Tranter antes de serem comprados pela Webley em 1887.
Na descrição geral, pode-se dizer que se trata de um maciço revólver de corpo sólido e ação dupla. Possui um pesado corpo forjado (martelado, com cano integral a armação) e um volumoso tambor de paredes finas (que alguém descreveu na aparência como “vários tubos soldados juntos”) que tinha de sair inteiramente da arma para a recarga, com a retirada de um pino frontal. Os estojos ficavam no tambor presos pelo culote a uma placa de apoio com furos para a expansão das espoletas, pois havia o risco de uma primitiva espoleta boxer estufar, e travar o elevador do tambor, ou o pino percussor impedindo o giro e o acionamento da ação dupla para o disparo seguinte. Este foi o real motivo do uso deste curioso sistema. Mesmo um rompimento do frágil estojo de latão enrolado seria certamente fatal ao atirador pelo risco de explosão da arma. Esta arma não possuía extrator e praticamente se desmontava o tambor inteiro para a recarga, sendo este seu maior ponto negativo para uma arma de combate: a lentidão de recarga, e em caso de perder uma das peças no calor de uma refrega certamente a arma ficaria inutilizada.
O modelo fabricado pela Webley tinha como características técnicas um comprimento total de 241 mm, cano de 127 mm (5,0 pol.) com sete raias dextrógiras, miras fixas, peso de 1190 g, e capacidade de 6 tiros em calibre 14,6 mm.
Este modelo teve vida curta, a própria Webley o substituiu em 1876 pelos revólveres com a patente do projetista Charles Pryse para um revólver tipo top-break, ação dupla, com sistema de abertura por duas alavancas laterais na carcaça e ejeção automática de estojos. O calibre era o 45. Em 1877 surgia o Webley-Pryse nº 4 disparando o calibre 476, (estas armas não foram feitas pela Webley em .577). Este design de Pryse era muito popular e foi fabricado e comercializado por diversas casas, autorizadas ou não. Ao que parece Webley não obteve a exclusividade desta patente e curiosamente o concorrente direto do Webley Nº 1 era uma versão famosa deste modelo (e deve-se dizer que bem mais prático que o nº 1 pelo sistema de carga), sendo comercializado a partir de 1877 em calibre .577 pela firma inglesa Bland, e conhecido como Bland-Pryse. Os Pryse foram bem copiados na Bélgica, inclusive por August Francotte & Co. de Liege. Uma versão belga feita por Jacques Nicolas Gilon usava um calibre nominal .600, (na verdade praticamente o mesmo que o inspirador inglês). Havia também cópias alemãs que disparavam o mesmo cartucho.
Outras armas que usaram o calibre .577 foram pistolas de tiro simples, cano duplo ou múltiplo com as Howdah, estas eram armas de grosso calibre com dois ou quatro canos (o termo howdah ou Houdah, vem de Hathi Howdah, que é uma liteira hindu tradicional que ia montada no lombo dos elefantes). Eram muito usadas para defesa de caçadores britânicos na Índia e África.


O cartucho .577
o gorducho e curto 577-2ª versão

Na época dos cartuchos carregados com a fraca pólvora negra, a única opção para se aumentar a potência era aumentar a carga de pólvora, visto que cartuchos de baixa velocidade transferem melhor a energia ao alvo quando tem calibres mais largos. Então obrigatoriamente se aumentava a longitude do estojo ou se aumentava o calibre e conseqüentemente a capacidade volumétrica interior da cápsula. Esta foi a solução inglesa para um dos cartuchos de arma curta mais poderosos da época: o .577 Boxer.
Desenhado pelo famoso Coronel Edward Mounier Boxer em 1868 (Superintendente do Laboratório Real Britânico no Arsenal de Woolwich), a primeira versão deste cartucho tinha estojo com corpo de papelão com metal enrolado na base e pescoço de aço (lembrando um cartucho de espingarda), usando a espoleta de fogo central inventada por Boxer. Logo depois vieram os tipos feitos com tiras de latão enrolado – a liga de “ouropel” – e soldados a uma base sólida de ferro com orifício para as famosas espoletas do Cel. Boxer (usadas até hoje), e por fim os de metal estirado, inteiriços, semelhantes aos modernos. O seu calibre tinha o mesmo diâmetro da munição (de projétil desengastado) do fuzil regulamentar: o .577 (14,6 mm), um calibre “mastodônico”para uma arma curta.

Utilizou-se inicialmente projéteis de chumbo sólido com calibre real de 14,8 mm ou .583, com um projétil pesando até 304 grains, montado num estojo com 20,9 mm de comprimento. Depois se mudou para projéteis com base oca auto-ajustável ao raiamento, semelhantes aos do fuzil. Este primeiro cartucho também é conhecido como .577 boxer, .577 boxer pistol, .577 coiled pistol, ou .577 pistol.

O segundo modelo já era de estojo metálico inteiriço e apareceu em 1872, sendo conhecido como .577 revólver. Tinha calibre real de 15,55 mm ou .612,com um projétil 450 grains. Comprimento de estojo de 25,85 mm e o cartucho montado media 31,40 mm. com um projétil pesando até 450 grains, a velocidade inicial era de 221 m/s, e a energia na boca do cano de 72 kgm. Em catálogos ficou conhecido também como 577 boxer pistol, 577 coiled pistol, 577 solid pistol, 14,75 x 20,90, e DWM 274. Foi manufaturado na Inglaterra pela firma Eley Company (e fora dela somente na Alemanha). Aparece disponível em catálogos até 1925.
Embora tendo tido uma curta vida militar, o Webley nº 1 e o conceito de seu cartucho fizeram escola, pois os ingleses ainda perseguiriam por muito tempo o cartucho “one shot stop”, surgindo finalmente tempos depois os cartuchos .455 Webley Mk III com seus projéteis "hollowpoint”e depois os Mk IV, do tipo flat-nosed wadcutter, os famosos "Manstopper”, e os .303 Dum Dum, que serviriam orgulhosamente a sua majestade e veriam muita ação até serem proibidos pela convenção de Haia. Doces lembranças para os ingleses de uma época onde “o sol não se punha” no império britânico e suas armas de mão eram as mais potentes do mundo.

domingo, 26 de julho de 2009

A Pistola Schönberger

A 1ª variante da pistola Schönberger


No mundo das armas de fogo da mesma forma que no mundo real, os pioneiros abrem o caminho para seus congêneres a duras penas e seus nomes não raras vezes são cobert
os pela poeira do esquecimento. Compartilhando do injusto limbo do ostracismo da memória oplológica com o revolucionário revólver Guerriero, uma arma que lançou o sistema de tambor basculando lateralmente (“swing out”) antes do celebrado modelo do Colt 1889 (ver artigo sobre ele neste blog), está a raríssima pistola semi-automática austríaca Schönberger.

A primazia de ser a “primeira” pistola semi-automática de sucesso comercial cabe a Alemã Borchardt, mas é fato sabido que ela não foi exatamente a “primeira” arma deste tipo. Na cronologia da evolução das armas automáticas Hiran Maxim no ano de 1883 experimentava uma carabina Winchester 1866 modificada para ser arma de funcionamento semi-automático, e logo após viria à luz em 1885 a sua eficaz metralhadora, a primeira totalmente automática. Obviamente que depois do sucesso de seus projetos e os experimentos de outros inventores, logo se pensou em usar a nova tecnologia que aproveitava o gás residual do disparo para movimentar o mecanismo, para as armas de punho, assim surgem as pistolas semi-automáticas, das quais para ser sincero nem mesmo a Schönberger teria sido a primeira, mas o “elo perdido” primitivo seria a arma criada na França pelos irmãos Clair (Jean-Baptiste, e Benoit Clair). Os Frerés Clair possuíam um ateliê de armas fundado por seu pai em 1838, a Manufacture mécanique d'armes de luxe et de guerre de Saint Etienne, na qual produziram armas brancas, armas de fogo, canos raiados para fuzis e armas de ar. Os experimentos do criativo Benoit incluíram dentre outros uma pistola e um rifle ditos “automáticos” (respectivamente patentes de 1887 e 1888). Desta pistola quase nada se sabe, exceto que provavelmente era do tipo gás-operada (por recuo Indireto de Gás), muito pesada, e usava um cartucho experimental calibre 8mm derivado diretamente do cartucho M1882 suíço de calibre 7.5mm (o 7.5 mm Swiss Army Revolver, com diâmetro de aro de 10.34 mm, certamente cartucho difícil de trabalhar numa arma de funcionamento automático, e de fato há relatos que era bem propensa a emperrar de maneira constante), tinha capacidade de cinco cartuchos carregados com a novíssima pólvora sem fumaça. De sua autoria também é um fuzil de caça de repetição que alcançou certo sucesso o “Clair-Eclair". Os dados e a aparência da pistola de Benoit Clair desapareceram na história, sendo raramente citada.

Tendo feito justiça ao citar este modelo, vamos finalmente à pistola Schönberger-Laumann, tão esquecida e misteriosa quanto a visionária arma projetada pelos irmãos Clair. A Schönberg
er M1892 foi patenteada no império Austro-húngaro em 17 de novembro de 1890 por Joseph Laumann, e nos EUA em 1892. Apesar da denominação do modelo levar o ano de 1892, não se sabe com certeza se entrou em produção efetiva pela Oesterreichische Waffenfabrik-Gesellschaft, Steyr, nesta data (fala-se até que o real início de fabricação teria sido em 1895, depois da patente do desenho de um segundo subtipo desta arma com um magazine melhorado). A real ‘paternidade’ do projeto gera outra série de controvérsias, tendo os direitos sobre o desenho pertencido por dois anos a Joseph Laumann, que os teria vendido aos irmãos Schönberger (de quem se diz que também teriam participado do projeto, fossem um dos diretores da Steyr, ou talvez seriam os financistas de Laumann), de qualquer forma a arma é também conhecida pelo nome de todos os envolvidos...

Sobre a descrição técnica da arma, o que podemos dizer é que inicialmente era uma arma de repetição manual que se converteu em arma de acionamento automático com ação por recuo direto simples retardado, (fecho do tipo delayed blowback). A armação era sólida com um carregador monofilar municiado por um clipe de 5
tiros situado à frente do guarda mato, herança dos fuzis militares de então, este tipo de alimentação ainda seria moda nas pistolas subsequentes como a Mauser C-96 e diversas de desenho de Bergmann. Na lateral tinha uma alavanca para armar o mecanismo de disparo (bastante delicado), que também seria utilizada depois esporadicamente em alguns modelos de pistolas.

O mecanismo era deveras sui generis
dentre as pistolas, pois no momento do disparo a culatra era bloqueada firmemente por um ferrolho cilíndrico com um único fecho composto por um braço bifurcado em um excêntrico, a cabeça do ferrolho sustentava o aro inteiro do cartucho, quando a arma é disparada a espoleta colocada profundamente dentro do estojo recuava devido a pressão da explosão da pólvora, cerca de 1/18 de polegada dentro de um canal até ser parada pela face do ferrolho, mas era o suficiente para atingir o pino percussor empurrando-o para destravar o excêntrico, deixando o ferrolho livre para voltar, movimentando em seguida o braço bifurcado contra uma mola, fazendo-o fechar o ferrolho e deixando a arma em posição de novo disparo.


O Cartucho que a Schönberger usava tinha calibre nominal de 8 mm e foi projetado em 1890 e reformulado em 1892 para uma pistola desenhada supostamente por Konrad Von Kromar (da qual não se tem muitas informações), sendo intercambiável com o 8mm Steyr (8x23R Steyr). Era do tipo “garrafinha”, Rimless, como dito acima tinha a espoleta colocada bem internamente, e ficou conhecido como 8 mm Schönberger, ou ainda 8 mm Selbstlade Pistole System Kromar, 8 mm Schönberger-Kromar, 8 mm Kromar Revolver, 8 x 22,5 R Revolver, GR 350, SAA 3775 e EB 091. O projétil tinha diâmetro real de .323 milésimos de polegada, e peso de 125 grains.

A Schönberger apesar de ser uma arma portátil e até prática comparada com a subseqüente pistola Borchadt (os dados gerais da Schönberger se perderam, mas a longitude total da arma sabe-se chegava a 20 cm), não decolou, sendo fabricadas cerca de cem unidades (ou apenas algumas dezenas, não se tem um consenso sobre a quantidade total produzida). Foi substituída na linha de montagem da Steyr pela pistola Mannlicher em 1894, um projeto obviamente superior.

A pistola Schönberger-Laumann teve esta primazia, a de ser a pioneira arma de mão que usou a força dos gases dos disparos para movimentar um mecanismo de maneira semi-automática em ciclo completo, embora não tenha sido produzida em grandes quantidades, com pouco sucesso comercial, abriu caminho a suas congêneres mais efetivas, robustas, e como um velho mestre que reconhece a capacidade dos próprios discípulos, cede-lhes o espaço e lhes dá a missão de continuar o caminho, furtivamente desaparecendo da história da Oplologia entrando para as brumas da lenda.

sábado, 6 de junho de 2009

A Pistola Parabellum No Imaginário Popular...Um estudo pseudo-psicológico



Em matéria de indústria e comércio, com o passar dos anos, algumas marcas escaparam da simples condição de objetos e passaram a ser sinônimos da classe de produtos a que elas pertencem (no Brasil são bem conhecidos exemplos típicos disso, como certa marca de cerveja, ou uma lâmina de barbear que designam respectivamente estes produtos). Outras ainda conseguem ultrapassar esta já importante condição de marcos sinalizadores, e chegam à condição de legítima lenda, se tornando em objetos de desejo, símbolo de status social, econômico, ou sinônimo de bom gosto (Freud explica?).
Entre as armas de fogo, esta nuance da psique humana também está presente. Assim teremos as armas mais caras, dignas de marajás indianos com apliques em ouro, prata, marfim, cheias de trabalho artesanal, feitas por encomenda em maisons tradicionais (como as espingardas da Holland & Holland), ou em afamados armeiros custom. Objetos cuja função social e psicológica mais compreensível, é a de demonstrarem socialmente a opulência, a riq
ueza, e o requinte (ou até o extremo mau gosto a depender do caso) de seu possuidor. Bem como as feitas de maneira descuidada, com materiais inferiores, de pouca tecnologia, próprias para as classes menos favorecidas e despojadas materialmente, chegando algumas a ser também marcos ou sinônimos de coisa ruim, de baixa qualidade.
Mas há outras que apesar de feitas em seqüência industrial, com acabamentos absolutamente normais entram para este rol seleto das “lendas de aço”, unicamente pelo apelo popular, ou pelas suas boas características técnicas de confiabilidade, ou pela construção cuidadosa (apesar de puramente comercial). Assim poderíamos citar as Mauser C-96 (chamadas de "mausa caixa de pau" por causa do seu coldre/coronha), as Colt 1911, as pistolas da FN, e dentre dezenas de modelos e fábricas que não citaríamos por ser enfadonho, a arma que agora nos ocupa, baseada na pistola Borchardt C-93 modificada e melhorada por Georg Luger, e transformada na pistola D.W.M. Parabellum em 1900 (conhecida também como Luger por causa do desenhista).
A temida e desejada pistola Parabellum entra na história oficial do Brasil em 1906, com um contrato do Governo Brasileiro com a firma D.W.M. - Deutsche Waffen und Munitionsfabriken (Sociedade Alemã de Armas e Munições), sendo encomendado naquela feita 5.000 pistolas em calibre 7,65mm Parabellum, com capacidade d
e 8 cartuchos, segunda trava de segurança na empunhadura, sem engate de coronha, cano de 4 3/4", e esmerado acabamento com oxidação brilhante de um lindo tom azul veludo.
Era a virada do século XX, sendo isso por si só bastante apelo comercial, técnico, e psicológico, pois as pistolas “automáticas”¹ significavam a últim
a palavra, afinal o debute do automatismo em armas portáteis era bem recente (iniciado com a experimental pistola Schönberger, em 1892), como vantagens visíveis portavam mais munição, e eram mais rápidas no tiro que os tradicionais revólveres. Temos talvez aí a primeira das pistas de seu sucesso subjetivo na cultura popular: a modernidade que representavam.
O potente e veloz, mas pouco efica
z em poder de parada, calibre 7,65 mm Parabellum, é logo seguido por um 9 mm mais eficaz já em 1902, e embora armas neste calibre não tenham sido adotadas pelo governo federal do Brasil (mas ao que parece a polícia da Bahia na época comprou algumas Lugers em calibre 9 mm Parabellum, e talvez outras, embora a falta de documentos de época seja um entrave a pesquisa séria), os civis sim, estes usavam muito estas armas em 9 mm, sendo as poucas 7,65 mm vistas em mãos de colecionadores nacionais eminentemente militares. Temos aí a segunda pista do seu sucesso centenário: Poder, tanto o poder subjetivo, o de usar a mesma arma que os representantes do governo usavam (tanto o federal representado pelo Exército Nacional, ou os estaduais representados pelas suas tropas policiais “volantes”), quanto ao poder palpável, real, obtido pela força dos disparos dos cartuchos dos calibres 7,65 mm e 9 mm Parabellum, mais potentes que os dos revólveres em uso corrente entre policiais e cangaceiros da época. Isso se fixou no imaginário popular como quase um axioma, que um disparo da Parabellum podia furar um trilho de trem, “olho de enxada”, apesar da excelente penetração que estas armas tinham, isso é um grande exagero, sendo desmentido até por testes práticos de uma revista de armas anos atrás.
Misturando-se a tudo isto, ainda temos a mítica do desenho, a empunhadura (cabo) possuía uma curva sinuosa, sensual, quase feminina, garantindo a ergonomia de uma pega adequada a mão do atirador, poucas vezes conseguida, mas muito imitada em outras armas. A própria exótica operação com o manejo do fe
rrolho subindo (o nome técnico de ação de joelho - ou “toggle-joint action” já diz tudo), mais o preço elevado da arma, pela cuidadosa fabricação e acabamento (mais um item adicionado à lista: status, riqueza), bem como a quantidade de modelos e opções, e estava feita em parte a receita do sucesso e da popularidade deste tipo.
Os diversos modelos da Luger puderam ser vistos em mão
s de todo tipo de gente, popularizou-se entre policiais e cangaceiros, que depois de 1930 usavam os modelos 1906 e 1908 – sendo que a pistola que Lampião usava quando foi morto era uma Parabellum P-08 de 9 mm (mas antes disso ao que parece, usava uma em 7,65 mm, e exigia toda a munição desse tipo que encontrasse). Essa Parabelum 9 mm de Lampião segundo dizem, foi comprada pelo mesmo na cidade de Capela no estado de Sergipe, em 1929 na casa comercial de Jackson Alves de Carvalho, sendo aparentemente a mesma arma que foi encontrada com ele em seu fim trágico em Angico [aliás na famosa foto das cabeças cortadas pode-se contar nada mais nada menos do que 7 pistolas Parabellum, sendo bem visível uma do mod. 1906, as outras menos visíveis pois estão coldreadas].
Também na famosa foto posada do chefe de bando Chico Pereira (reproduzida ao lado), homem de posses e intelecto acima do bandoleiro comum, um tanto fidalgo até) está bem visível na cintura dele uma enorme pistola Parabellum do mod. de artilharia de 1917 (com cano de 20 cm de comprimento, contra os de 10 cm das mais habituais P-08, este tipo foi usado pelos serventes da artilharia do exército do Kaiser alemão na Primeira guerra mundial, daí seu nome), inusual por estas paragens, embora em entrevista há muitos anos com um ex-jagunço dizia ele que haviam muitas Lugers de cano longo pelo sul da Bahia. Ainda sobre personagens que usaram as Parabellum, os Coronéis, seus jagunços e pistoleiros de aluguel também a apreciaram, tendo chegado ao meu conhecimento pelas divertidas estórias do meu finado Tio Zeca, que lá pelos anos 40 trabalhou na fazenda de um rico fazendeiro na fronteira da Bahia/Minas Gerais. Ele me contou que na casa da sede tinham caixas fechadas com dezenas de carabinas Winchester e 8 pistolas Parabellum, além de outras armas curtas! Para economizar tempo na hora de limpar eles simplesmente jogavam óleo por cima e fechavam a caixa, bem como a popular e hilária estória de um camarada que ao ir à casa de uma “mulher da vida” em Bom Jesus da Lapa (BA), guardou a pedido da desconfiada “moça” que o “atendia”, a sua Parabellum num Bocapiu (sacola de palha)... que não tinha fundo... Ao cair no chão a arma (que por certo como diz o povo estava com “bala na agulha”) começou a disparar sozinha até ficar sem munição (típico defeito de pistolas, numa peça chamada fiador), ambos ficaram agachados num canto do quartinho da “moça”, agarrados e muito assustados, já se isso foi verdade é outro caso...
Mas a realidade técnica longe do mito é bem outra. A bem dizer a Luger em parte não justificava a sua boa reputação (mundial, pois foi arma de coldre padrão de dezenas de nações, lutou nas duas guerras mundiais, e é uma das mais procuradas por colecionadores até os dias de hoje), sim, de fato é uma arma precisa, mas por causa de seu desenho peculiar era cara de se manufaturar, tolerava poucas variações nas cargas dos cartuchos, tinha muitas peças pequenas, era bastante sensível à poeira, gelo e lama encontráveis em quase todo teatro de operações, pois o mecanismo não é coberto por inteiro, o seu carregador tinha tendências a encravar no 2º cartucho por causa da inclinação da mesa elevadora e da mola fraca, e o 1º era muito duro de se introduzir manualmente, mesmo assim foi um tremendo sucesso de vendas.
Mas em nossas terras longe de tecnismos, a fama da lendária pistola corria de norte a sul, notadamente no Nordeste das primeiras décadas do século XX, onde entrou sorrateira no imaginário popular (o famoso Parabelo) como uma das estrelas principais de uma época tão difícil de medo e violência: O ciclo do Cangaço.

Debutou num ambiente onde a falta de esperança no futuro e na justiça transformava por vezes a apatia em revolta, em mote da vingança. Numa terra de homens e mulheres destruídos moralmente e materialmente pela pobreza e pela fome (há relatos de vendas de pessoas e até macabras histórias de canibalismo), onde a tragédia humana da seca diuturna, que fazia as caveiras dos animais branqueando no pasto inexistente, rir com suas mandíbulas desencaixadas, lembrando aos homens que os seus natimortos, os menores, e os seus mais velhos em breve os seguiriam na jornada da qual não se volta. A política e o poder asfixiante dos coronéis, a grilagem de terra, a imensidão das caatingas sem lei, a pretensa liberdade dos bandoleiros, e isso tudo num caldeirão social em ebulição, permeado por fanáticos. Creio modestamente que a junção destes fatores contribuiu para que o mito da Parabellum se perpetuasse como uma arma potente e bela, símbolo de status social, instrumento de morte precisa e de poder. Poder esse que era ao mesmo tempo opressor e transformador, pois se a Parabellum era a arma dos odiados volantes e coronéis, também era a do “Capitão” Virgulino Ferreira e dos cangaceiros.

Os projéteis das Parabellum, rápidos como o vôo do carcará, e mortais como a cascavel, percorreram os ambientes hostis (tanto o natural como o social) das caatingas, e suas histórias como arma coadjuvante nas mãos de homens que primaram pelo heroísmo, traição ou covardia, mantidas pela tradição oral, chegaram aos nossos dias fascinando os pesquisadores modernos, que evidentemente tem de peneirar o joio do trigo.


¹ Na verdade pistolas são armas semi-automáticas, esta incorreção se perpetua até hoje tanto no meio popular como na mídia pouco técnica.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O Revólver Guerriero

Bem, costuma-se dizer que o mundo é dos mais espertos, certo? Via de regra isso é verdade, pois quem tem uma dose maior de imaginação, determinação, malícia, ou mesmo má fé, consegue por vezes ter sucesso, mesmo que tenha levado a fama por algo que não fez ou inventou. Assim veremos um aeroplano ter de ser catapultado para “voar”, e tudo isso sem testemunhas. Internacionalmente os irmãos Wright ficaram com a fama de inventar o avião em detrimento ao feito histórico do nosso patrício Santos Dumont, que decolou em Paris frente a centenas de testemunhas.

Da mesma forma se sucede no mundo das armas de fogo. A primeira pistola semi-automática (Borchardt) é fato sabido, não foi a “primeira”, sendo a austríaca Schönberger (patenteada em 1890) a ter esta primazia, embora não tenha sido produzida em grandes quantidades com pouco sucesso comercial. Reza a lenda que a primeira arma a usar o tambor basculando lateralmente (swing out) foi um revólver de fabricação da Colt (dizem que Samuel Colt teria tido a idéia da sua arma, ao ver um dos modelos do primitivo revólver de pederneira de Elisha Collier, lançados décadas antes de seus modelos Paterson – armas de tambor, aliás, são comuns na história medieval ainda em sistema de mecha) em 1889, certo??? Mas... E se eu dissesse que há indícios de que uma esquecida (e pouco conhecida) arma teria lançado o sistema ainda no tempo dos Lefaucheux? Espantados? Esta arma jurássica que protagonizou um sistema de extração e remuniciamento que ainda hoje não tem rival para os revólveres se chamava revólver Guerriero.

O revólver Guerriero (desenho do autor)

Em princípios de 1860, Alexander Guerriero, Conde de St. Ange, patenteia na Itália um revólver desenhado por ele conhecido depois como revólver "italiano". A arma chegou a ser aprovada pela comissão da Regia Marina Italiana, e reconhecida com um prêmio do Instituto Real da Lombardia, mas como seus esforços para produzi-la foram infrutíferos, transfere-se então para Liège, que na época já é um centro de importância vital na produção de armas de fogo, onde a sua arma, será manufaturada por Breuer (provavelmente Eugene Breuer, de Liège, operava no nº 86 da Rue Louvex – aliás, na arma se estampava na lateral direita à frente do tambor: Sistema Italiano e uma punção com um brasão no qual estão contidas as iniciais do nome do inventor e o de Breuer). Na mesma época a arma é patenteada na Inglaterra sob nº 628/1863.

Os militares franceses se interessam pela arma prevendo talvez uma possível substituição aos então regulamentares revólveres Lefaucheux 1858. Vários revólveres são testados pela comissão de testes de Vincennes no período entre 1864 e 1865. Para proteger sua invenção Guerriero deposita em Paris em 1866 a patente do seu sistema sob o N° 71.326. Finalmente em 1869 a comissão de testes acaba com as pretensões de Guerriero, encerrando as provas com o veredicto desfavorável à arma: apesar das inovações, o mecanismo era frágil para uso militar, com tendência a emperramentos e com uma ação dupla muito dura, sendo a arma muito pesada (1.500g).

Mas finalmente, que arma era esta? No geral tratava-se de um revólver tipo Lefaucheux de armação fechada, de construção bastante sólida (sendo isso já um grande diferencial dos concorrentes de então, que usavam em numerosos casos armações construídas em mais de uma peça e open top), municiado com cartuchos de pino de calibre 15 mm. A grande novidade estava NUM TAMBOR BASCULANTE À DIREITA (como seria curiosamente usado anos depois no revólver d’ordonnance modèle 1892, e em vários outros modelos franceses e belgas), retido por um pino colocado à frente da armação, havendo uma vareta pra expulsão dos cartuchos, mantida travada por uma mola debaixo do cano. Na parte traseira do cilindro havia uma espécie de placa circular do mesmo diâmetro, com uma dobradiça e contendo uma mola que a abria automaticamente descobrindo as câmaras, no momento em que o tambor era deslocado da sua posição original. Esta peça circular recobria o culote dos cartuchos protegendo os pinos (espoletas), e ainda continha em seu corpo a catraca para proporcionar o giro. O cão atravessava um grande escudo de recuo, que aumentava a proteção dos cartuchos contras choques (as armas do tipo Lefaucheux eram muito chegadas a disparos acidentais em quedas), tendo ainda uma posição “half-cocked” utilizada na hora de municiar a arma.

Depois do rápido ocaso de suas pretensões militares, o revólver "italiano" terá como destino o mercado civil, com uma grande variedade de tamanhos, calibres, e acabamentos, terminando por desaparecer silenciosa e injustamente nas brumas da história. A maior (e talvez única) virtude desta arma, o seu sistema de tambor basculante, foi esquecido depois do fim deste, embora possamos citar como contemporâneo o revólver de Warnant “Le Regent” patenteado já em 1885, com tambor basculando também a direta. Esta arma foi fabricada na Bélgica por Jean Warnant, e na Espanha em Eibar, por Domingo Alberdi em 1885. (o uso de tambor abrindo à direita seria moda da época? Ou necessidade dos cavalarianos que usavam a mão esquerda para usar a arma de fogo? Pois na direita se usava o sabre). Mais de 20 anos depois, a empresa americana Colt compraria a patente de um jovem engenheiro chamado Borchardt, lançando em 1889 com estrondoso sucesso “o primeiro” revólver do tipo "swing out", ou seja, com tambor rebatível lateralmente.